OS QUE NÃO FORAM CONSULTADOS
A Álvaro Tavares
Gustavo Corção
Dias há em que a gente fica triste com o ofício que tem. Imagino como não deve
ser enervante para as cozinheiras, nesses dias, a atmosfera das frituras e a
companhia das caçarolas; como não deve ser monótono para o ferreiro o gemido das
bigornas; como não deve ser triste, muito triste, o vai-e-vem da agulha na mão
picada da velha costureira. Cada ofício é uma prisão: as coisas ficam sendo o
que são pelo bagaço. E o cárcere do ofício é duro, asfixiante, enervante...
Ora, a minha profissão — assim me parece nesses dias — é ainda mais triste do
que as outras. A cozinheira vê seus pratos feitos, substancialmente
constituídos; e vê a alegria da casa alimentar-se de seu feijão. O ferreiro vê o
ferro curvar-se, conformar-se e obedecer. E a costureira vê a perseverante
agulha conquistar o pano de ponto em ponto, obrigando-o a seguir os contornos de
um corpo e os movimentos de uma alma. Nesses ofícios tudo é concreto, tudo é
palpável.
Considerem agora o meu. Que fabrico eu? Palavras. Escritas ou faladas, da manhã
à noite, no papel, na sala de aula, ou diante de um microfone que esconde não
sei quantos ouvintes — talvez nenhum — eu cozinho palavras, eu forjo palavras,
eu costuro palavras. "Words, words, words..." Meu ofício é um ronronar
que já dura trinta anos. Triste ofício. E não sou eu que só dele descreio. Tu
também, amigo leitor, tu também não crês no meu ofício. Gostas de ler.
Aprovas-me quando logro alinhavar com alguma felicidade os meus adjetivos ou
quando prego com boa linha as minhas conjunções. Mas confessa: na verdade, não
acreditas muito no valor dessa procissão de sinais escritos, e muito menos crês
no fugaz valor do som articulado que sai duma velha garganta cansada de
ronronar. Palavras hoje, palavras amanhã. Em tempo e contra tempo...
Ora, estando eu num desses dias de preamar da melancolia, um outro oficial do
mesmo ofício contou-me uma linda história. Ele pronunciava, diante de seleto
auditório (como se costuma dizer) uma conferência sobre casamento, limitação de
natalidade e aborto. Acabada a conferência e ouvidas as palmas que, como todos
os sons, também se perdem no ar, o nosso conferencista voltou para casa. Ia
triste. Revolvia na memória as ressonâncias do que dissera. O seleto auditório
estava, evidentemente, de acordo com o que ele dissera. O universo continuava o
mesmo depois da conferência; ou se não, se mudara, se o trajeto de algum átomo
sofrera algum desvio milimétrico, as vidas, os corações, os seletos corações, ao
contrário, seguiriam seus itinerários sem que o sopro das palavras conseguisse
desviá-los. O que é uma conferência? Um sopro. Um vento. Falar é modo requintado
de abanar... No caderninho de notas do conferencista, estão as outras
conferências aprazadas: depois de amanhã, dia 15, dia 24, etc., etc., etc.
Quatro meses mais tarde, estando o nosso orador à porta de uma livraria a ver
passar o mundo, é abordado por uma moça risonha com sete meses bem contados de
gravidez, E sem mais preâmbulos, apresentou-se:
— Naquela conferência eu estava de três meses. E não ia ficar. Tinha resolvido
não ficar. Mas o senhor disse aquela frase...
A moça despediu-se. Dobrou a esquina. O conferencista viu ainda uma vez o majestoso perfil da gravidez, e quedou-se a pensar. Que frase? Não se lembrava. Lembrou-se de uma página de Edgar Allan Poe, onde o poeta diz que as estrelas do céu nasceram de palavras de amor. A sua frase — que frase? — lá com suas conjunções, advérbios e proposições fizera alguma coisa maior, infinitamente maior do que as estrelas do céu: salvara uma criança. Será menino ou menina?
* * *
Ouvi hoje contar o caso de um acrobata americano que teve uma idéia. "Brain wave".
Uma idéia nova para seu programa de televisão. É assim: em pé no rebordo do
telhado de um arranha-céu ele faz cabriolas, não com seu próprio corpo, mas com
o corpo de uma criancinha de meses que ele atira para o ar, apanha, equilibra,
muda de mão e passa entre as pernas. Como se vê, o espetáculo deve ter sido
excitante e gostoso para os pupilas cansadas de outros espetáculos mais
rotineiros.
Essa história lembrou-me outra. Estavam duas ou três senhoras de nossa melhor
sociedade, dessas que tomam chá de chapéu, a discutir o caso de um desabusado
cirurgião (também da melhor sociedade) que provocara um aborto sem consultar
ninguém. Dizia, então, uma das senhoras, a do chapéu de lilás: "Eu acho que a
família deve ser consultada..." A dama de chapéu cor-de-amora foi mais precisa:
"Eu acho que compete à mãe, exclusivamente, resolver o caso". E estava a
conversa neste ponto quando um amigo meu, tímido e gago, que nunca consegue ser
ouvido por ninguém, sugeriu que quem devia ser consultada era a criança. E é a
ausência dessa consulta que me horrorizou na história do acrobata. Por muito
menos zangou-se um dia Jack London, numa tourada, porque os touros e cavalos não
eram ouvidos.
Mas ninguém ouviu a reflexão de meu amigo. Como ninguém ouve a misteriosa
linguagem com que os embriões de dois a três meses declaram categoricamente que
querem viver. Como também cada dia menos se ouve a linguagem, já menos
mistificada, das crianças de dois ou três anos que são energicamente contrárias
ao divórcio. O fato é esse: na ginástica, no aborto e no divórcio, há pessoas,
personagens, pessoas humanas, vivas, que estão envolvidas e que não são ouvidas.
"Ora, direis, ouvir crianças... certo perdeste o siso!", dirá algum leitor que
ainda se lembre dos esplendores do nosso parnaso. Como é possível ouvir um
embrião? Como se pode ponderar o que diz uma criança de dois anos?
Digo-te eu, leitor, que foste tu que perdeste o siso. E acrescento: o mundo está
como está, e o nosso Brasil chegou onde sabemos que chegou, porque as pessoas (a
começar pelas da melhor sociedade) não têm mais ouvidos para ouvir e entender a
linguagem dos fetos. Fuzilam-se inocentes, aos milhões, sem remorsos, dada a
circunstância supersônica de seus protestos. Vou explicar-te, amigo, mais uma
vez, como se pode ouvir o que não fala, e consultar o que não tem a idade da
razão. É muito simples: ouvindo e consultando a lei que está gravada na natureza
das coisas, a lei que qualquer consciência desobstruída de chás e chapéus pode
ouvir e consultar. Uma boa lavadeira, uma honesta cozinheira, sem procurar
psicólogos e sociólogos, têm ouvidos para a voz da Inocência perfeita, para a
voz que condena o aborto, o divórcio, e outras acrobacias feitas com carne de
gente.
* * *
Por falar em aborto, ouvi dizer que na Suíça tornou-se legal. Não sei detalhes.
Não sei em circunstâncias, pelos quatro cantões da Suíça, tornou-se admissível
matar a criança que teve a impertinência de brotar num ventre de moça. Imagino
que os suíços, que são reconhecidamente um povo ordeiro e asseado, e sobretudo
muito deferente com os turistas, tenham descoberto excelentes razões para
assassinar pequeninos suíços. Uma das razões que imagino seria a seguinte:
mata-se a criança excedente pelo bem da pátria e da família. Um pouco como se
queima o café, para valorizá-lo. De uma senhora, que tem um Pontiac verde-claro,
já ouvi dizer que se justifica "não guardar" para manter o "padrão de vida". Não
se guarda a criança para guardar-se o Pontiac. Outra senhora, um pouco menos
desvairada, alega que fuzila a criança não nascida em benefício das outras já
nascidas.
Esses argumentos chegaram aos ouvidos de meu amigo Álvaro Tavares que sugere uma
emenda para a teoria dessa senhora que mata um filho em benefício dos outros:
admitido que se deva matar um para benefício da família e da sociedade, devemos
deixar a criança nascer, e, mais tarde, num conselho de família, escolher a
criança mais feia, ou mais bronca na tabuada, ou mais birrenta na mesa, e então
executá-la para o maior bem da família e da pátria.
Concordo inteiramente com essa emenda apresentada pelo meu amigo Álvaro Tavares.
Em nome da psicologia, da sociologia e da eugenia, acho precipitada a pena de
morte que recai sobre a "criança desconhecida". O mundo, entre seus momentos de
prolongado desvario, já teve a idéia de honrar o soldado desconhecido; mas nos
seus piores momentos ainda não teve a idéia de fuzilar um criminoso
desconhecido. E muito menos um desconhecido inocente. Aprovo pois a emenda e
aqui acrescento o meu pesponto. Em lugar do conselho de família, eu sugiro que
consultem um psicotécnico.
Voltando aos suíços, confesso que não me espantei demais com a notícia. Tenho
desconfiança desses países muito ordeiros, muito arrumados. Tenho horror a
hotéis. Só me espanto com uma incoerência que vejo nessa lei dos suíços: se a
religião daquele pitoresco país é o turismo, se tratam tão bem os que chegam das
Américas, porque diacho maltratam assim o pequenino turista que ingressa num dos
quatro cantões pela mais antiga das portas?
(Dez Anos. Rio de Janeiro,
AGIR, 1957.)