A
CRIAÇÃO
Gustavo
Corção
Dois
autores espirituais de índoles tão diversas, como Santo Tomás de Aquino e São
Francisco de Sales, tiveram ambos a idéia de colocar a mesma consideração no
pórtico de duas grandes obras: a Introdução à Vida Devota e a Summa
Contra Gentes, IIª Parte. Ambos os autores, um em termos mais universais e
grandiosos, e o outro em termos mais particulares e adaptáveis a cada alma,
propõem a consideração do Universo, da Criação, como útil ao progresso da
Fé. O Doutor Angélico, invocando as palavras do salmista: “medidatus sum
in omnibus operibus suis”, abre o seu segundo capítulo com estas
palavras: “A meditação das obras divinas é necessária ao homem para a
edificação de sua Fé em Deus.” E logo adiante acrescenta que o primeiro
proveito é o de deixar a alma admirada e maravilhada, porque, como já mil e
tantos anos antes dissera Platão, não pode haver sabedoria sem essa inicial
disposição de louvor. Nessa perspectiva poderíamos dizer que o princípio da
sabedoria é a admiração. O que Santo Tomás deseja de nós é que
descubramos, na meditação das obras de Deus, que Deus é causa primeira de
tudo, causa eficiente segundo o seu poder, causa exemplar segundo sua sabedoria,
e causa final segundo sua bondade; ou que cheguemos a vislumbrar, na essencial
bondade de todas as coisas, o reflexo daquela Bondade que é o próprio Deus.
Em
tom menor, com uma graça infinita, e com uma língua de fazer inveja a qualquer
escritor de qualquer idioma, São Francisco de Sales, com a maior amabilidade do
mundo, quer que vejamos na meditação das coisas criadas a fragilidade, a miséria
e o quase nada do ser contingente: “Considerez qu’il n’y a que tant
d’ans que vous n’etiez point au monde, et que votre être était um vrai
rien. Où
etions nous, ô mon ame, en ce temps là? Le monde avait dejá tant duré,
et de nous il n’en était nulle nouvelle.” E o salmo que invoca
é o XXVIII, onde o cantor compungido e agradecido diz: “Senhor, eis-me diante
de Vós como um verdadeiro nada, como tivestes lembrança de mim para me
criardes?” E mais adiante, compondo dois salmos num só grito de
agradecimento, escreve o santo doutor: “Ó minh’alma, saibas que o Senhor é
teu Deus; foi ele que te fez, e não tu mesma que te fizeste; somos obra de Suas
mãos.”
Ora,
é por essa mesma pauta, e seguindo tão altos exemplos, que procuramos orientar
nossas aulas, que colocamos sob os auspícios e proteção de São Pio X. A Criação
pode ser admirada e louvada de muitos modos, como nos ensina o Benedicite.
Um desses modos, que escolhemos, é o que envolve e atualiza a pesquisa científica
sobre as origens de tudo. Há tanta beleza e maravilha nos átomos, no
contraponto da chamada série periódica, nos enlaces moleculares, nos
monumentais edifícios das proteínas, no intrometimento eficacíssimo das
enzimas, no mistério da origem da vida como no espetáculo das constelações,
ou como no espetáculo ainda mais maravilhoso do sorriso de amizade com que
telegrafamos tantos segredos aos nossos irmãos de planeta.
Posso, entretanto, garantir ao leitor que a linguagem usada nas aulas é mais comedida, e busca ser sempre instrutiva e construtiva do Reino de Deus. É o melhor que podemos fazer de nós mesmos: e ainda melhor faríamos se nos ajudassem a dar a esses cursos um caráter mais institucional. (1967)
(PERMANÊNCIA, 1990, julho/agosto, números 260/261)