CIÊNCIA E FÉ
Gustavo Corção
Todos
nós sabemos que é impossível viver uma sombra do cristianismo se não cremos
num Deus pessoal, e se não cremos ou não compreendemos que nossa alma
ultrapassa o nível ontológico do mundo físico. Já o simples senso comum nos
adverte que é fútil limitar a realidade ao campo direto ou indireto de nossos
sentidos. Seria estranho, estranhíssimo que a totalidade do ser tivesse a
medida do homem sem ter sido o homem o Criador de tal totalidade. É
absolutamente inconcebível o materialismo, que só se sustenta porque seus
adeptos se detêm, e se detêm precisamente no ponto em que era vitalmente
decisivo o avanço. É tola, fátua ou desvairadamente soberba a atitude de quem
imagina um só instante que a totalidade do ser, o real total, o que existe, o
“tudo” se limita aos níveis de percepção de nossa sensibilidade. Para o
empirista, o real absoluto e total, deus de si mesmo, criador e sustentador de
sua própria substância, não pode exceder os limites de nossa percepção sensível.
Haverá maior audácia, maior extravagância do que esta mesquinharia?
Vale
a pena considerar mais de perto esta bizarra retração mental que se acantona
no real sensível e se nutre do sacramento do fenômeno, isto é, do
encadeamento de fatos observados no mundo sensível. Chamam de progresso esse
estado acabrunhante que se mede por pequenas satisfações colhidas do domínio
do mundo inferior. Relembro Platão a dizer que a admiração é o começo da
Filosofia, e transponho a sentença para o domínio da Fé. A razão humana só
guarda aptidão de filosofar, e de crer na Trindade, na divina maternidade de
Maria, na Encarnação e na Ressurreição de Cristo, enquanto conserva a
capacidade anterior de se admirar. Ora, uma das coisas que o mundo exteriorizado
e agitado produz é o aturdimento que embota a admiração. E aqui neste ponto
vale a pena realçar o funesto papel do cientificismo e do tecnicismo: essas
duas atmosferas culturais viciam o homem prendendo-o à visão próxima e
estrita do encadeamento dos fenômenos. Quem vive e respira esse ar fica
atrofiado, doente, reumático. Faltam-lhe olhos de ver mais longe, falta-lhe até
pescoço para deixar que a cabeça se eleve. Não precisa ser cientista ou técnico;
se vive na cultura que só valoriza essa concatenação, esse imediatismo de
causas, não terá ânimo, coragem, esperança para alongar os olhos da alma
para as causas primeiras e últimas. Receio que essa raça de homens
vigorosamente horizontalizados um dia venha a esquecer que o céu tem estrelas.
E é isto que chamam de progresso? Passam a plaina do critério científico em
torno de si, e pensam que estão mais ligados ao real do que os homens dos séculos
passados, que admiravam, que rezavam e que adoravam um Deus pessoal, e
pessoalmente interessado nos fios de cabelo, e nos lírios dos campos. Reduzem o
real, retraem o espírito, amordaçam o coração, e terminada esta tarefa nos vêm
dizer com enorme satisfação que são homens modernos.
A
que coisa se referem os escritores católicos ou protestantes quando contrapõem
a Ciência às formulações clássicas da Fé? Se se trata das disciplinas que
estudam os fenômenos, suas concatenações e seus parâmetros mensuráveis, não
existe Ciência, e sim ciências, cada uma em seu campo e com seus métodos. Essas
ciências se comunicam, se ajudam numa certa direção, mas não nos
proporcionam síntese alguma merecedora do singular e da maiúscula, a não ser
que reduzamos todo o quadro fenomenológico de uma ciência ao de outra,
anterior, e mais simples. 0 biólogo precisa conhecer química, física e matemática,
mas deixará de ser biólogo no momento em que se convencer de que todos os fenômenos
da vida se reduzem à química, ou à mecânica. Qual dessas ciências poderá
contrapor-se a um dado da Fé? Poderá a fé na Trindade ser objetada por um químico
em vista das últimas experiências feitas na síntese das proteínas, como as
descobertas de Jacob e Monod? Poderá a virgindade de Maria ser contestada por
astrônomos ou por botânicos? Em certas circunstâncias, pareceu ao mundo
civilizado que a descoberta de habitantes humanos na América e nas ilhas da
Polinésia constituía um óbice ao dogma do pecado original e do monogenismo.
Mais tarde surgiram fortes indícios de que não eram autóctones os habitantes
da América encontrados pelos descobridores europeus, e sim migrantes asiáticos
que em vários pontos e de vários modos atravessaram o Pacífico. Mas
suponhamos que esse passo não tivesse sido dado e que ainda permanecêssemos na
falta de informações sobre os selvagens americanos. Seria lícito dizer que a
ciência tirava desta falta de informações uma prova da impossibilidade da
migração? Já mencionamos há pouco os equívocos produzidos pela má
interpretação dos achados paleontológicos e já vimos que essa pobre ciência
que opera sobre vestígios e sinais não tem competência para afirmar um fato,
muito menos quando se trata de uma averiguação que escapa ao domínio do fenômeno
observável. Julgar por sua semelhança anatômica que uma ossada pertenceu a um
homem é plausível. Jurar que efetivamente foi um animal especificamente
racional que nos legou sua caveira é inteiramente insensato. Tal afirmação
escapa inteiramente à jurisdição das ciências da natureza física. Como pode
então alguma ciência, ou como podem todas as ciências juntas, numa espécie
de Congresso, impugnar as verdades da Fé? O contrário já tem sido feito. A fé
já deixou os cientistas sem resposta nos milagres de Lourdes; mas não há um só
dos chamados “milagres da ciência” que tenha a virtude de incomodar uma
consciência católica.
O
verdadeiro cientista deve ser marcado por uma confiança e por uma dúvida,
confiança na experiência que leva o fenômeno à evidência, e dúvida em relação
principalmente às conclusões e às correlações.
De
qualquer modo, e para não nos alongarmos demasiadamente neste problema
epistemológico, podemos dizer que a humildade (e o brio) do cientista está
nessa espécie de dúvida. Não deverá dizer que a ciência se apóia em si
mesma e em coisa nenhuma, mas pode perfeitamente reconhecer que seus itinerários
são trôpegos e tateantes. Como querer trazer para outros domínios tais critérios?
Os tolos, como costumam ser em sua maioria os progressistas, pensam que a Ciência
nos dá certezas eternas e absolutas, ou então certezas válidas para
determinada conversatio cultural, e por isso se entende que queiram
trazer para os domínios da fé o “espírito científico” da análise
empireológica. Para uma pessoa familiarizada com o ambiente de verdadeiros
cientistas, é inadmissível tal qüiproquó. A mesma inteligência que sente,
que até exagera a fragilidade das flores que colhe no seu campo não tem razão
nenhuma para tentar trazer o amargo da dúvida para os fundamentos das verdades
reveladas, a menos que ponha em dúvida a totalidade da religião, a começar
por sua presunção à origem divina.
É impossível, então, falar de fé e de ciência nos mesmos anfiteatros, porque é impossível falar das coisas de Deus sem a admiração ingênua das crianças. (“Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele”, Luc. XVIII, 17). (1976)
(PERMANÊNCIA,
1990, julho-agosto, números 260/261.)