DO
CIENTIFICISMO ÀS SOCIÉTÉS DE
PENSÉE
GUSTAVO CORÇÃO
Com
o objetivo de apontar, na bacia hidrográfica a que nos referimos atrás, os
principais afluentes que convergem todos na caudalosa Revolução que faz de
nosso século um estuário de contestações e recusas, comecemos por este
“ismo” que, no livro anteriormente citado (Dois Amores, Duas Cidades,
Agir, 1967), foi apontado como uma das primeiras conseqüências da poluição
nominalista. Cremos que vale a pena transcrever algumas linhas dessa obra:
“Como
atrás já dissemos, o termo cientificismo não designa o maior
incremento de pesquisas nem o maior ardor de estudo nos domínios das ciências
naturais. Tudo isto, em si, é bom. O que não é bom é o estado de espírito
que coloca a ciência da natureza na presidência de uma civilização, depois
da expulsão da Sabedoria.
“Uma
vez que a inteligência não alcança as coisas superiores — diz o homem
moderno — apliquemo-la no trabalho de apalpar o fenômeno para dele tirar uma
nova confiança em nós mesmos, e para ordenar a nosso gosto a imensa mãe telúrica,
brutal, que às vezes, no seu sono pesado, mata os próprios filhos.
“Esse estado de espírito nos primeiros tempos produzirá grande euforia. A
humanidade, depois de descobrir a pólvora, o movimento dos astros, a força do
vapor, o poder mágico da eletricidade, terá, como teve nos séculos XVII,
XVIII, XIX, momentos de inebriado otimismo.
“A
cândida idéia que logo ocorrerá nos espíritos fracos é a de que, na
continuação dos tempos, a Ciência do fenômeno polirá todas as arestas do
Velho Homem, iluminará todas as trevas, resolverá todas as dificuldades. Ora
essa idéia, comicamente falsa, extravagante, delirantemente falsa, foi
difundida e tornou-se o ar que respiramos e a água que bebemos, e isto
aconteceu porque a Civilização Ocidental moderna já não tinha à sua presidência
os dados da antiga Sabedoria. Se os tivesse, ouviria a censura clara [...]: a ciência
dos elementos exteriores dilata o campo do domínio do homem sobre as coisas
exteriores e inferiores, mas nada acrescenta ao domínio do homem sobre si
mesmo. Uma civilização [...] não pode ser governada pelas ciências da
natureza, que é cega, surda e conseqüentemente muda para os problemas mais
comuns e mais profundos de nossa vida. Como já disse em outra obra[1],
a ciência pode-nos dizer que nossos pulmões estão anormais e devem ser
tratados desta ou daquela maneira, mas é inteiramente incapaz de nos dizer,
de nos sugerir o que podemos ou devemos fazer de nossos pulmões normais.”
Hoje
eu não diria que o cientificismo, isto é, a falsíssima idéia que
espera da ciência inferior a solução para os problemas superiores,
difundiu-se depois da desmoralização e do destronar da Sabedoria; antes diria
que essa tentação foi um dos fatores que contribuiu para a rejeição da
Sabedoria. E, assim dizendo, estarei apontando o “cientificismo” (e não a
legítima glória das ciências) como um dos fatores do revolucionarismo
evacuador da civilização.
Para
entender bem o processo demolidor da subversão cientificista, é preciso
compreender a imensa significação que teve nesse drama a desmoralização do
“senso comum” promovida pelos “intelectuais” a partir do século XVIII,
sempre em nome da “Ciência”. Todo o drama cultural que no século XVIII
capitaliza explosivos para a Revolução Francesa começou pelo repúdio do
senso comum, que eu chamaria de petite sagesse e que foi a primeira vítima
da torrente nominalista que inundou os tempos modernos. E para compreender bem a
gravidade e a infinita conseqüência desse processo precisamos saber o que não
é e o que é o “senso comum” neste contexto. Poderia remeter o leitor à
citada obra (Dois Amores, Duas Cidades, Agir, 1967, vol. II pp. 57 e
seg.) ou recomendar o profundo estudo de R. Garrigou-Lagrange, Le Sens commun
(Desclée de Brouwer, Paris, 1936); mas cremos prestar bom serviço avivando e
condensando aqui as noções principais.
De
início lembremos que todo homem já nasce com todos estes dons de sua natureza
racional:
a)
a alma espiritual ou forma específica pela qual o homem é homem;
b) as potências da alma: a inteligência e a vontade racionais;
c) as inclinações inatas determinadas pelo condicionamento (incluindo
o
corpóreo e o sensível), que favorecerá ou desfavorecerá a sorte
ulterior
dos “hábitos” adquiridos;
d) os primeiros princípios, que são dons da natureza.
A
partir desse núcleo essencial começa a história das aquisições intelectuais
e morais. O senso comum se situa na zona dos primeiros acervos da razão
especulativa e da razão prática, é uma primeira metafísica rudimentar, e uma
primeira filosofia moral. Situado entre a cercadura dos primeiros princípios e
a cercadura maior e mais confusa do consabido cultural de cada época,
ouso dizer que o senso comum, de importância vital para todo o desenvolvimento
ulterior do homem, está muito mais próximo dos primeiros princípios do que do
firmamento das coisas sabidas por todos num momento histórico, e portanto
participa mais da perenidade da metafísica (digo da reta metafísica) do que da
fluência e da mobilidade do consabido, que anos atrás ignorava
totalmente os raios laser, o código genético, a existência de um planeta
transnetuniano e outras coisas desse tipo.
O
senso comum é um acervo das primeiras elaborações dos primeiros princípios e
poderá ser enriquecido ou deformado pelo envoltório cultural.
Gostaria
de me estender longamente sobre a transcendental importância do senso comum
tanto na vida temporal, particular ou pública, como na vida da Fé, que se
torna dificilmente praticável numa sociedade que perde a docilidade ao real, e
o instinto racional quase espontâneo, que levaria a razão a bem considerar as
coisas se não houvesse perturbações culturais trazidas pela enxurrada da história.
Sem o senso comum sadiamente começado e alargado sem estorvos, dificilmente
pode o homem começar a fazer filosofia e teologia, dificilmente pode ser vivida
a sabedoria. Este é o drama dos tempos modernos, desde a Renascença e a
Reforma, que na obra anteriormente citada chamei “civilização do homem
exterior”. E nesta “civilização”, mal nascida de imensos dramas
intelectuais, morais e religiosos de toda a Cristandade, e marcada com sinais
genéticos do nominalismo, um dos fatores mais nocivos para o senso comum, e
portanto para todo o edifício da civilização e de seu relacionamento com a
Igreja, foi o cientificismo. Torno a dizer: não foi em si o progresso da ciência
das coisas exteriores e inferiores — a física, a astronomia etc. — que é
razoável e constitui uma glória para o homem, e sim o preço filosófico e
religioso que custou esse progresso, por ter sido orgulhosamente armado em forma
de rejeição de mais altos graus de saber, isto é, em forma de revolução.
Até
hoje a pestilência do cientificismo continua a produzir seus frutos, como se vê
no prazer sádico com que Bertrand Russell, sob pretexto de filosofia matemática,
tentou desmoralizar o senso comum, e como se vê no próprio nível vulgar da
estupidez moderna, que é, toda ela, tecida de pedante e asmático
cientificismo.
Creio
poder afirmar que um dos grandes pioneiros desse espúrio subproduto das ciências
foi Galileu — ou, mais exatamente, o “affaire Galileu”, em que o próprio
foi um dos agentes, mas não o único. É pena que Jacques Maritain não tenha
introduzido este d’Artagnan entre os Três Mosqueteiros da Revolução (Trois
Réformateurs), que na verdade foram quatro. Para maior aflição nossa, o
grande tomista teve a infelicidade de abordar o caso Galileu pela outra ponta, o
que só vem servir os interesses da grande Rejeição. No seu livro recente De
l’Église du Christ (Desclée de Brouwer, 1970), Maritain aborda o caso
mais explorado dos últimos quatro séculos como se estivessem em jogo os
direitos da Ciência feridos pelo Santo Ofício, e não como efetivamente estava
em jogo a pretensão do “cientificismo” e a injúria feita ao senso comum em
nome do “progresso da Ciência”[2].
Em
vista do papel de destaque que esse caso desempenhou no afluente revolucionário
que nos trouxe a este estuário de erros, não resisto à idéia de inserir, com
a maior condensação possível, algumas considerações que, de início, têm o
picante do desafio, porque levam a mostrar que, no caso, certo estava o Santo Ofício
e errado Galileu. E antes que clamores de asneiras escandalizadas cheguem ao meu
tugúrio, apresso-me a explicar o problema em termos de exemplar moderação. E
desde logo observo que só entenderá alguma coisa do imbroglio quem
tiver, razoavelmente claras, meia dúzia de noções.
Entre
essas noções dou lugar de destaque ao senso comum, que é, por assim
dizer, uma primeira trincheira onde temos de defender o humano. Forçado pelo
espaço, contento-me com o que disse no tópico anterior, e com a leitura a que
remeto de Garrigou-Lagrange (Le Sens commun), passo a ocupar-me da
segunda, que diz respeito à estrutura e aos métodos das ciências da natureza:
física, química, biologia, astronomia etc.
Desde
a Idade Média, e principalmente desde Santo Tomás, sabemos que convém
distinguir, no cabedal científico a que damos vários nomes, conforme seus
objetos materiais, duas coisas:
a)
O acervo dos dados observados e trazidos por observações e experimentações
à prova da evidência sensível. Demos a este principal patrimônio, e
principal critério das ciências, o nome de “dado fenomênico” ou de “fenômenos
observados”, ou ainda lembremos o nome que davam os escolásticos: “apparentia
sensibilia”, onde o termo “apparentia” não quer dizer “o que
parece ser” nem, muito menos, “o que
b)
A segunda coisa é a síntese interpretativa feita de teorias destinadas a
propor uma explicação conexa aos vários elementos dispersos do dado
observado.
E
aqui cabe um reparo importante: a teoria interpretativa, apesar de seu talhe
imponente, é cientificamente sujeita ao observado, aos fenômenos, e só se
mantém enquanto suas articulações e a costura de seu tecido de hipóteses
explicativas conseguem dar conta dos dados observados. Santo Tomás, na questão
relativa à possibilidade de prova metafísica da Trindade (S. T. Prima, Qu.
32), chega à conclusão de que seria possível sem a Revelação adivinhar,
propor a idéia de um Deus Trino refletido em todas as coisas, mas não é possível
prová-lo como provamos a existência de um Ato Puro ou de um Ser A-se. E então,
para o ilustrar genialmente com um exemplo astronômico, Santo Tomás diz que é
evidentemente provado o movimento dos astros, que naquele tempo se enquadravam
para cálculos de eclipses etc., na teoria dos epiciclos que viera do Almagest
de Ptolomeu e durante quatorze séculos conseguira enquadrar os “dados
observados”; mas logo o Doutor Angélico acrescenta com o mais lúcido
discernimento científico (além dos outros, mais altos) que isto não provava a
teoria dos epiciclos, e que amanhã ou depois outra teoria interpretativa
poderia dar uma explicação mais simples. O que importava era a salvaguarda do
“depósito observado”. Digamos como os escolásticos: “opportet salvare
apparentia sensibilia”.
Há
nos tempos modernos dois exemplos curiosos e curiosamente cercados de circunstâncias
e ressonâncias diversas. Comecemos pelo segundo: a saturação e os primeiros
estalos de uma das teorias interpretativas mais gloriosas da ciência moderna: a
síntese newtoniana. Durante mais de dois séculos o mundo ocidental viveu tão
solidamente agarrado à gravitação universal formulada por Newton, que muitos,
mesmo nos grêmios mais científicos, chegaram a esquecer a essencial distinção,
isto é, chegaram a esquecer que a teoria interpretativa pode ter as costuras
rompidas pelo advento de um fenômeno observado que nela não consiga encontrar
explicação cabal. Tal era a convicção, mais cientificista do que científica,
que milhões de pessoas não hesitariam em dizer que estava matematicamente
provado que os corpos se atraíam na razão direta das massas etc. etc.
Ora,
essa afirmativa era errônea (filosoficamente), porque nada se pode demonstrar
matematicamente de coisas físicas. Pode-se observar, pode-se medir, mas essa
não é uma operação matemática, e sim física.
Hoje
sabemos que a grande síntese newtoniana não dava boa conta, por exemplo, do
movimento do periélio de Mercúrio, nem conseguia enquadrar bem o
eletromagnetismo depois de Maxwell. Por essas e outras, e sobretudo depois de
Plank e Einstein, operou-se uma transformação do sistema de síntese
explicativa para cumprir o preceito escolástico: salvaguardar o depósito
observado. Não se trata pois de reformar, de revolucionar, e sim de procurar
novos meios de sistematização que continuem o acervo adquirido e crescido. Não
creio que tenha passado no espírito de Einstein ou de Plank que Newton fosse um
trevoso medieval deixado para trás a babar na gravata, ou na gargantilha, que
era o que se usava naquele tempo em que também se usava a ação à distância
como vitória sobre o aristotelismo.
Aliás,
convém lembrar que Netuno, descoberto com cálculos de Lavoisier do mais
ortodoxo newtonismo, até a 6a. ou 7a. casa decimal do
logaritmo, não tornou a mergulhar no ignoto, nem os eclipses, que ainda se
calculam na mesma honrada mecânica celeste, que tão bons serviços prestou,
deixam de comparecer, com a prevista pontualidade. Mas o fato incontestável é
que a Física newtoniana, assim chamada por seu lado hipotético-explicativo,
cedeu lugar a outra Física, que ainda se debate perdida numa excessiva soma de
dados que andam à procura de nova roupagem.
O
segundo exemplo de mudança de teoria interpretativa para a mantença do “depósito
observado” foi cronologicamente anterior à transmutação Newton-Einstein e
ocorreu num clima de euforia já revolucionária. Refiro-me ao “caso Copérnico”,
que merece um tópico especial, mais por seu alarido do que por seu valor
epistemológico.
A
contribuição de Copérnico, por causa do ponto histórico em que ocorreu,
produziu no mundo um ataque de estupidez que dura até hoje. Até então o
sistema de Ptolomeu permitia prever a posição dos astros e o comparecimento
dos eclipses, com uma precisão que só dependia do aperfeiçoamento dos
aparelhos de medida (isto é, do instrumental de observação física), e todo
ele se firmava em referenciais que estavam na Terra e eram tidos por imóveis.
Da escolha desse sistema referencial fixado no observador terrestre resultavam
os famosos epiciclos para a adequada, e tão rigorosa quanto possível, previsão
do movimento dos astros. Durante quatorze séculos esse majestoso sistema deu
conta dos “dados observados”, ou salvou os fenômenos, como dizia Santo
Tomás. Copérnico fez a experiência placidamente prevista por Santo Tomás;
imaginou outra escolha de eixos coordenados com o centro no Sol e viu que toda a
geometria do movimento se simplificava se colocasse o Sol no centro do sistema
planetário e se partisse do puro postulado (sem nenhuma base na observação)
de serem circulares os movimentos dos planetas em torno do Sol.
É
inegável a intuição que teve Copérnico nessa escolha de novos referenciais,
mas há um colossal exagero no valor que passa o mundo inteiro a atribuir-lhe.
Na verdade, esse cientista na possuía sequer o instrumental matemático; este
lhe foi dado por um matemático alemão, Georg Rheticus (1514-1516), que,
ouvindo falar em sua teoria, veio trabalhar dois anos com ele. Com os dados
observados retomados no século XV por George Burlach (1423-1461), da
Universidade de Viena, e sobretudo por seu discípulo Johannes Müller
(1436-1476), que haviam estudado na Itália as versões gregas do original de
Ptolomeu, puderam ambos elaborar a obra principal que Copérnico publica: De
revolutionibus orbium coelestium. Morre poucos anos depois (1543) sem ser
incomodado por ninguém e talvez sem imaginar que lançava outra “revolução”,
diferente do giro circular dos planetas. A chamada revolução copernicana é
realmente uma revolução no sentido que hoje dou a este termo. Sem culpa
nenhuma do autor, a mudança de eixos de uma cinemática trouxe fortes abalos
culturais, e muita gente sentiu efetivamente um abalo no nível do senso comum,
e até hoje as vítimas do cientificismo exageram o feito, ignoram as controvérsias,
ignoram que a estrepitosa “revolução copernicana” nada descobriu na
natureza física dos astros, mas pouco mais fez do que rearrumar os eixos de uma
geometria do movimento, isto é, de uma cinemática. E sobretudo ignoram que,
facilitando embora os cálculos astronômicos de previsão da ascensão reta e
da declinação dos planetas, e das datas dos eclipses, o sistema de Copérnico
“não trazia melhor aproximação do que os cálculos feitos com os epiciclos
de Ptolomeu”, e até de certo modo se arriscava a trazer erros maiores,
porque, enquanto os astrônomos tradicionais se apegavam aos dados observados
que extrapolavam, Copérnico apegava-se a priori, e sem base física, à
idéia antiqüíssima, pitagórica, de órbitas circulares.
Há,
assim, na festejada novidade um divertido anacronismo que vem precisamente do
fato de ser mais imaginoso do que cientista o autor de De revolutionibus...,
e do fato de não ter sido dócil ao observado como ensinava Santo Tomás: “opportet
salvare apparentia sensibilia”. É curioso notar que o conhecido autor da
revolução copernicana, além de apriorista em matéria de física, era
rigidamente tradicionalista quando censurava Ptolomeu por ter-se afastado
demasiadamente de Pitágoras. E eis aqui um divertido paradoxo, resultante da
mistura do cientificismo com uma espécie de mística, ou de “gnose”, com
que Copérnico é ao mesmo tempo abridor de portas do século XVI e o fiel pitagórico
de vinte e dois séculos atrás. Kepler (1571-1630), quando descobrir a forma elíptica
das órbitas planetárias e as famosas três leis do movimento planetário, dirá
que Copérnico não soube aproveitar a riqueza que tinha nas mãos. Cumpre porém
notar que, mesmo depois do apuro trazido pelas leis de Kepler ao movimento dos
planetas, se aplica à astronomia do tempo a mesma queixa formulada por Francis
Bacon contra Galileu e Copérnico.
“Adversário do método elaborado por Galileu, que consiste em isolar os fenômenos do contexto natural, para estudar somente os aspectos mensuráveis, e para desenvolver depois vastas teorias matemáticas sobre a base dos resultados, Bacon reclama a consideração dos fatos que tenham relação com a matéria tratada: em astronomia, por exemplo, a natureza física dos corpos celestes, que Copérnico desprezava, e a resistência do ar na queda dos corpos, desprezada por Galileu...”[3]
Na
verdade, a astronomia até Kepler, e antes de Newton, reduz-se a uma cinemática
baseada em medidas de ângulos: era uma trigonometria esférica em movimento,
com duas dimensões angulares, e uma 3a. dimensão de duração t.
Exagerei dizendo em outro lugar[4]
que se reduzia a uma cinemática colocada no 2º grau da abstração matemática.
Onde há medida experimentalmente feita, com régua e transferidor, por exemplo,
já há uma espécie de topografia do espaço físico. O que se pode dizer, sem
exagero, é que aquela astronomia era de uma magreza física esquelética, que não
tinha o direito de passar dos entes de razão, ou da teoria interpretativa para
a matrícula no acervo fenomênico, a não ser com prova física, isto é,
reduzida experimentalmente a uma evidência sensível, e uma “apparentia
sensibilia”.
Mesmo
depois de Newton (1642-1727) é ainda prematuro dizer que está fisicamente
provado o movimento de rotação da Terra, e fisicamente justificada a escolha
do centro do sistema planetário no astro que condensa a maior massa. É somente
depois da medida da constante g de gravitação, realizada em laboratório
por Cavendish (1731-1816), que a chamada lei da gravitação universal pode ser
provada, medida, e assim enquadrada no acervo fenomênico. Mas ainda é cedo
para dizer que está cientificamente provado que o Sol atrai os planetas na razão
direta das massas e na inversa do quadrado das distâncias, porque o verbo atrair
implica toda uma teoria interpretativa. Na física moderna ainda não se
solidificou uma tranqüila teoria da gravitação, mas a tendência parece ser a
de procurá-la mais numa “forma” do espaço-tempo em torno de uma massa do
que numa ação à distância.
Ainda
depois de Kepler, Newton e Cavendish é prematuro falar em prova física do
movimento diurno da Terra, que só ingressa no patrimônio do “dado
observado” com as experiências do pêndulo de Foucault, na cúpula do Panthéon
de Paris, em 1850.
Apesar
do título rebarbativo, o que queremos dizer neste tópico é simples e
relevante: sendo as ciências empíricas (a astronomia, a física, a biologia
etc.) compostas de duas partes, um acervo fenomênico ou um “dado observado”
de um lado, e uma “teoria interpretativa” de outro, é fácil adivinhar a
soma de equívocos que advirá quando tomarmos uma coisa pela outra. E aqui
cumpre notar que, embora não pareça, a primeira parte é muito mais inacessível
e impopular do que a segunda, porque são poucos os que entram em confronto
direto e fraterno com o irmão-fenômeno, e muitos são os que lêem as notícias
das sínteses teóricas, quase sempre em formas vulgarizadas e brutalizadas.
Tomemos
por exemplo o movimento diurno da Terra.
Muito
poucos são os que fizeram ou refizeram a experiência de Foucault, e os que,
com o olho colado à ocular do círculo meridiano, puderam verificar com
aproximação cada vez maior a uniformidade do movimento angular dos “pontos
no infinito” que cruzam os fios do retículo. Todos os outros que falam da
rotação da Terra, de oitiva falam. De ouvir dizer e não de coisa vista ou
diretamente ouvida. Essa grande e respeitabilíssima maioria dos não-astrônomos
o pouco que sabem de astronomia não o sabem com ciência adequada e autônoma,
sabem-no por informação, por fé humana, ou por ciência pobre, inadequada e
heterônoma. A mais lúcida inteligência do mundo, digamos por exemplo Jacques
Maritain, fala com toda a simplicidade do acerto de Galileu, da mancada do Santo
Ofício, sem se dar conta de que a verdade “científica” do movimento da
Terra só é por ele conhecida em nível colegial de ciência heterônoma,
colada por informação.
Arma-se
aqui um problema filosófico interessante e indispensável à compreensão dos
equívocos tecidos em torno do “caso Galileu”. Será hoje o movimento diurno
da Terra um simples dado do consabido, uma ciência realmente heterônoma de
pura informação, ou será hoje um dado do senso comum e, portanto, sob certo título,
uma ciência muito mais densa do que uma simples informação?
“Respondeo
dicendum” que, nos tempos de Galileu e Copérnico, a rotação da Terra
era um dado da teoria interpretativa, sem prova física para os próprios
autores e defensores da idéia, que abusavam de seus dons intuitivos, divinatórios,
ou de suas faculdades oníricas quando a apresentavam como fisicamente
provada. Galileu chegou a dizer, sem direito de fazê-lo, que o sentia (ao
movimento da Terra) como se o tocasse com as mãos. O glorioso florentino, nesse
passo, abusava de seus talentos e cometia fraude epistemológica. E aqui não me
venham dizer — pelo amor de Deus e das verdades menores — que o futuro deu
razão a Galileu e provou que era verdade o que afirmava, porque a honra e
dignidade do cientista não consiste em ter intuições de que outros mais tarde
darão a prova adequada a esse grau de saber. Não, mil vezes não. A honra e
dignidade da ciência não consiste em “acertar” como na loteria (que só
mais tarde comprova o acerto), consiste essencialmente em dar as razões
do que assevera, ao demonstrar o que diz com os recursos adequados a esse grau
de saber. Foucault poderia dizer, metafisicamente, que sentia o movimento diurno
da Terra como se o pegasse, mas Galileu, sem fraude ou abuso, não podia. Mas não
é ainda aí que se situa o nó da questão para o qual abrimos este “respondeo
dicendum”, é na posição do problema em relação ao senso comum.
Perguntávamos se hoje o movimento da Terra é um simples dado do consabido, ou
do dilúvio de informações, ou se já ganhou lugar no senso comum. E agora
respondo dizendo que “hoje” o movimento da Terra se incorporou aos dados
periféricos do senso comum, porque entre os dados mais nucleares da petite
sagesse está a confiança no que se tornou opinião universal e
incontrovertida apesar da minguada minoria dos astrônomos.
Diferente
era a situação no tempo de Galileu: a influência do consabido da época no
senso comum tornava-o pouco acolhedor de uma transposição de eixos que
colocasse o observador no Sol, a menos que se atribuísse ao Sol uma
imutabilidade e outros atributos cientificamente desnecessários para
salvaguardar o “depósito observado”, mas psicologicamente necessários para
amolecer as resistências do senso comum e predispô-lo a novidades fantásticas
de caráter gnóstico em que se misturavam dados de ciência e de religião,
entremeados.
A
História é sempre composta de uma face clara, consciente, superficial, onde se
demarcam as datas, se travam as batalhas e se mudam os regimes, e de outra,
subterrânea, por onde correm os vasos capilares do mistério, irracionalismo
e perpétua conspiração que os homens inventam nas profundezas da alma com a
ilusão de conjurar assim as variadas aflições da vida.
O
claro e estridente século da Renascença e da Reforma, com toda a sua presunção
cientificista, ou por causa dela, não escapou à regra geral e até se pode
dizer que a confirmou com certo exagero. Assim é que, no próprio domínio da
ciência que produzirá o cartesianismo e o culto das idéias claras, se vê o
lado sombra formado pelo culto religioso do Sol, que vigorava na era das pirâmides,
no Egito e na Mesopotâmia.
Num
recente artigo[5]
Lewis Mumford assinala a estranha composição do “progressismo” do século
XVI, metade mecanicista, metade gnóstica, sendo de notar que a parte gnóstica,
esotérica ou mágico-supersticiosa não era trazida pelas classes mais
ignorantes, mas pelos mesmíssimos “filósofos” que enaltecem a ciência e
que no século seguinte começarão a preparar a revolução. Vale a penas
inserir aqui algumas passagens de Mumford:
“Se
algum ponto da História pode ser assinalado como o início da moderna concepção
do mundo, concepção mecânica, expressão de uma nova religião e base de um
novo sistema de poder, esse ponto está na quinta década do século XVI. Nesse
tempo não foi apenas o sensacional De Revolutionibus Orbium Coelestium,
de Copérnico, que veio a lume; foram também o tratado de anatomia De Humani
Corporis Fabrica, de Vesalius (1543), a Ars Magna, álgebra de Jerônimo
Cardano (1545), e a teoria da bacteriologia patogênica por Fracastor em De
Contagine et Contagionis Morbis (1546). Cientificamente pode-se dizer que
foi a década das décadas.
“A
maneira usual de interpretar a chamada revolução copernicana é a que
considera como principal efeito a ruptura de uma teológica e assentada concepção,
pela qual Deus colocara a Terra no centro do universo, e fizera do homem o
objeto último de sua atenção. Se o Sol é efetivamente o centro do universo,
então toda a estrutura da teologia dogmática cristã — com seu único ato de
criação e a alma humana tida como interesse central de Deus, e a provação
moral do homem neste mundo como preparação para a vida eterna em conformidade
com a vontade de Deus — toda essa estrutura está ameaçada de colapso.”
Observo
eu que não é a Sagrada Congregação do Santo Ofício que está dizendo essas
coisas em Roma nos idos de 1616, é o atualíssimo e muito lúcido autor de The
History of Utopies que nos descreve o impacto cultural, o impacto teológico
e, conseqüentemente, o impacto na fé católica trazido pelo “heliocentrismo”,
e nos prepara o espírito para a divertida surpresa de ver o refluxo desse
impacto sobre os próprios autores das descobertas, invenções, utopias ou
sonhos. Continua Mumford:
“Visto
através das novas lentes da ciência, o homem encolheu. Em termos de escala
astronômica, o gênero humano totaliza pouco mais do que um efêmero e inquieto
mofo deste planeta. A ciência, que realizou esta impressionante descoberta pelo
simples exercício das naturais faculdades humanas e não pela divina revelação,
tornou-se a única fonte de autêntico conhecimento digno de crédito. Tudo
isto, porém, embora nos pareça hoje tão claro, não foi imediatamente
reconhecido por aqueles que estavam mais profundamente cativados pela nova
religião...”
Cabe
aqui um reparo: esse encolhimento do homem não ocorreu logo no século XVI, após
a formulação do heliocentrismo por Copérnico, porque a “escala astronômica”
só ganhou divulgação depois da medida da distância do Sol, a qual, não
podendo ser feita por método puramente trigonométrico com base na Terra como
a distância da Lua, foi efetivada pelo astrônomo Halley em 1631 por um
processo mais indireto, que envolvia a observação de uma passagem de Vênus
sobre o disco solar observada por dois astrônomos muito afastados. Essa distância,
que orça por 149.000.000 quilômetros, passou a ser o metro da nova
escala astronômica, que somente no século XIX (1840), quando Bessel mediu a
primeira paralaxe da estrela 61a. do Cisne, ganhou as dimensões
de anos-luz, que logo passaram de 4,3 (da estrela mais próxima, Alfa do
Centauro) para milhares, milhões e bilhões de anos-luz com os sucessivos
progressos da espectroscopia, da fotometria e da atual radioastronomia. Como
porém, tudo isto foi descoberto pelo simples exercício natural das faculdades
humanas, segundo observa Lewis Mumford, o conseqüente encolhimento do homem
esmagado pela escala astronômica foi alternativamente seguido de momentos de
narcisismo idolátrico: o próprio homem, em vez de passar de pulga a Napoleão,
como na cabeça de Raskalnikoff, oscilava vertiginosamente entre Deus e Nada.
Nunca chegara a tão delirante amplitude a oscilação psicológica a que Oliver
Brachfeld[6]
denominou “complexo de Guliver”. E nunca se descurou tanto do conselho de
Pascal: não é bom falar na glória humana sem evocar sua miséria, mas também
não é bom demorar-se em sua miséria sem lembrar sua glória.
Outro
reparo: Mumford diz que todas as exorbitâncias do cientificismo, que hoje nos
parecem claras, não foram imediatamente percebidas por aqueles que estavam
profundamente cativados pela nova religião. Ora, isto que parece tão claro
hoje a um dos mais argutos observadores da atualidade continua obscuro para os
“progressistas” da nova religião, e o que disse ele ter passado
despercebido aos “progressistas” da nova religião do século XVI não
passou despercebido ao Santo Ofício, cujos juízes no caso de Galileu sentiram,
no nível do senso comum vivificado pela Fé, ou graças aos dons do Espírito
Santo, não apenas uma tese ousada e mal fundada, mas todo um intrincado
processo de cientificismo e de gnose que divinizava o Sol, no século XVI, como
nos mostra Lewis Mumford, que mais adiante escreve:
“O
efeito imediato da nova teologia foi o de reviver concepções que datavam do
tempo das pirâmides no Egito e na Mesopotâmia.”
Alongando-se, no referido artigo, em considerações que merecem ser lidas e meditadas, em certa altura Mumford cita Battersfield, que diz: “Copérnico se torna lírico e chega quase à adoração do Sol quando escreve a respeito de sua natureza monárquica e da posição central que ocupa”. Tyllyard assinala que o Sol, na era elisabetana, era geralmente considerado como contraparte material de Deus.
Creio
que agora temos, na condensação que nos foi possível, as várias noções e
os vários dados que permitem uma abordagem do caso Galileu que permitirá,
assim o espero, desanuviar mais uma das tantas histórias mal contadas com que
se tece a história.
Eis
os termos em que o Santo Ofício, sob o pontificado de Paulo V, foi consultado
em Fevereiro de 1616. Duas proposições foram apresentadas:
1a.)
O Sol é o centro do mundo e por conseqüência imóvel de movimento local.
2a.) A Terra não é o centro do mundo nem imóvel, mas move-se ela
toda por um movimento diurno.
Poucos
dias depois a resposta é dada:
“a)
A primeira proposição é insensata e absurda em filosofia e formalmente herética,
por contradizer expressamente muitas passagens da Sagrada Escritura, conforme a
propriedade dos termos, segundo a interpretação comum e o sentido dos santos
padres e dos doutores da teologia.
b)
Quanto à segunda proposição, ela merece a mesma censura filosófica, e
Dois
dias depois, o comissário do Santo Ofício notifica a Galileu a censura lavrada
contra a opinião segundo a qual o Sol está no centro imóvel do universo, e a
Terra se move. Essa opinião não deve ser sustentada nem defendida. Galileu é
advertido das penas a que se expõe e promete obedecer.
Aqui
termina a primeira parte do caso Galileu, e desde já se escandalizam os que vêem
em tais condenações do Santo Ofício um crime de lesa-majestade contra a Ciência.
Ora, por incrível que isto pareça aos que se deixaram conscientizar pelo culto
da “libre-pensée” (que na verdade, como veremos, é um culto da pensée
vide), ouso dizer que essa reação é errônea. O próprio Maritain [..]
diz mais adiante[8]
que: “Se os juízes do Santo Ofício se enganaram tão gravemente foi porque,
por um errôneo princípio ainda mais perigoso (por ser de alcance geral),
julgaram que a ciência dos fenômenos estivesse sob a jurisdição da teologia
e de uma interpretação geral da Sagrada Escritura. Pode ser — digo eu a título
de hipótese — que os juízes do Santo Ofício acreditassem nesse falso juízo
epistemológico, mas o que é certo, e duvido que algum filósofo ou teólogo
possa contestar-me, é que, se a teologia e o Magistério da Igreja não podem
julgar as ciências dos fenômenos nos seus processos intrínsecos e próprios,
podem e devem julgar o uso que o cientista faz das intuições e
teorias interpretativas do fenômeno. Não ignoro que essa jurisdição da
Igreja é hoje negada e recusada em todo o nosso bravo novo mundo gloriosamente
pluralista. Mas é preciso lembrar que, no tempo de Galileu, a Igreja e o Santo
Ofício ainda se sentiam responsáveis por todos os passos em que a prudência
pastoralmente recomendava moderação nos domínios da ficção e do sonho científico.
Além disso, explica-se certa brutalidade na sumária condenação do Santo Ofício,
que parece efetivamente colocada em termos dogmáticos, pela consciência que
tinha de representar ainda a paternal proteção de uma civilização cristã.”
Podemos
admitir que os assessores e juízes do Santo Ofício, não sendo todos geniais e
santos com Santo Tomás, tenham confundido a censura pastoral que as
proposições de Galileu bem mereciam com a censura dogmática que só mereciam
efetivamente os erros formalmente contrários à Revelação e à Fé; mas não
podemos deixar de assinalar que tais proposições, lançadas num contexto
cultural despreparado, em que os próprios astrônomos, como Tycho Brahé,
reclamavam provas convincentes, afligiriam a cristandade nos costumes
intelectuais, no nível do senso comum, que, além da Fé e dos costumes, também
está sob a salvaguarda da Igreja. Além disso, notemos que a Igreja seria
impraticável, e que a Civilização Cristã seria impraticável, se os juízes
do Santo Ofício devessem todos ter a estatura de Santo Tomás. O próprio
Maritain (na página 357 da mesma obra citada) diz encolerizado que:
“[...]
se era verdade — e é efetivamente verdade — que (como diz o Cardeal Journet)
todos os contemporâneos tinham como evidente ‘que essa condenação
doutrinal atingia matéria revogável por uma autoridade falível’, eles, os
juízes, eram certamente os primeiros a saber que poderiam estar enganados.”
É o caso de perguntarmos: E daí? Se os juízes do Santo Ofício podiam proibir e censurar infalivelmente, concluo eu que o erro não está no personnel mas na Personne da Igreja, que tanto tempo admitiu a possibilidade de governar, que necessariamente inclui a possibilidade de decisões gravíssimas em matéria revogável, e fora do domínio estrito da infalibilidade. Se o Santo Ofício além de uma grave mancada (bourde) cometeu um “abuso de poder”, então concluímos que é impraticável o governo da Igreja, já que o exercício da infalibilidade deve ser poupado preciosamente para as questões extraordinárias, e diretamente contrárias à Fé, e já que o governo exige medidas pastorais em todas as matérias ordinárias.
E
volto a dizer, com a consciência de estar afrontando de um lado um himalaia de
opiniões amontoadas durante quatro séculos, e de outro um autor que em
filosofia sempre tive por mestre, que o pronunciamento do Santo Ofício quis
dizer que aquelas proposições eram perigosas contra a fé, nocivas à fé no nível
do senso comum, que é uma sabedoria (rústica embora), e como tal
superior e mais merecedora de cuidado do que as ciências das coisas exteriores
e inferiores, que nada perderiam por esperar um pouco o sinal verde nos
cruzamentos da história, e que põem em risco toda a civilização se querem
ser elas as infalíveis.
Além
disso, nunca é demasiado insistir neste ponto: o erro do genial Galileu, no seu
próprio campo científico, foi mais grave e mais petulante do que o excesso de
formulação dogmática com que o Santo Ofício o advertiu. A idéia de um Sol
imóvel no centro do mundo é mais grotesca, mais fantástica, mais insensata do
que a tradicional idéia que colocava o centro na Terra em que surgiu o homem e
se encarnou o Verbo de Deus. O Santo Ofício, sem o saber, sem sequer fazer
questão de provar as sucessivas revoluções da Física, dizendo que o
“heliocentrismo” era insensato e absurdo “filosoficamente”, diz o mesmo
que diriam os físicos modernos: a proposição que diz estar o Sol imóvel no
centro do universo é meaningless para um físico, “e mesmo para um não-físico”,
como disse Einstein em situações semelhantes. Mais acertada é a proposição
filosófica ou teológica que coloca o centro do mundo onde está o
observador capaz de medir paralaxes e anos-luz, ou onde esteve a Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade em sua condição carnal.
Sim,
em 1611 como em 1971, e como em 2611 e até o fim do mundo, só terá sentido a
noção de centro do universo na ordem do conhecimento e do amor. O Sol será,
se quiserem, centro imaginário (ente de razão matemática) da órbita
percorrida pelos centros de gravidade dos planetas, circular para Galileu, elíptica
para Kepler, e complicadamente helicoidal quando se descobriu, depois que a análise
espectral revelou, o deslocamento de certas raias K na direção do
vermelho ou na oposta conforme se observavam estrelas nas cercanias da constelação
de Hércules, ou na oposta. Desde essa observação ficou sabido que “messer
frate il sole”, longe da majestática imobilidade que lhe atribuíram Copérnico
e Galileu, é um globo incandescente caindo, ou melhor, errando no espaço, mais
erradiamente do que Parsifal sem elmo nem lança. Desmanchou-se num novelo
caprichosamente desenrolado o pomposo “heliocentrismo”, que sempre foi uma
pobre verdade de fraca compleição, como dizia Ibsen, porque já no tempo de
Kepler o Sol passou do centro do círculo para o foco da elipse, e hoje não
passa de um dos trepidantes e incertos grãos de nosso “restless Universe”,
como diz Maz Born.
Na
verdade, a proposição apresentada ao Santo Ofício por Galileu, ligada à
presunção de uma prova física de que lhe parecia “evidente como se a
tocasse com as mãos”, constitui um monstro epistemológico, onde se misturam
os graus de abstração e onde a hipótese explicativa se transforma em dado
observado, ligado a uma fraude pelo empenho com que tentou, na divulgação,
inculcar a idéia de uma “prova científica”.
Parece-me
indubitável que nesse episódio Galileu, como cientista, errou mais gravemente
na formulação de sua comunicação do que os juízes do Santo Ofício erraram
como teólogos; porque para defender cabalmente o enunciado da condenação nos
basta colocá-lo no plano pastoral de defesa do senso comum barbaramente
agredido, não pelas pesquisas e observações dos satélites de Júpiter, não
pelas teorias explicativas apresentadas prudentemente com caráter de hipóteses,
mas pela fraude com que se pretendia inculcar como provado o que teria de
esperar muito estudo para ganhar direito a um enunciado decentemente científico.
E aqui me parece especialmente infeliz a nota (a) de Maritain (op.cit.,
p. 393):
“Que
Galileu não tenha realmente demonstrado o movimento da Terra nada tem que ver
aqui. Realmente foi somente depois de Newton que o heliocentrismo se impôs a
todos os homens de ciência. As provas invocadas por Galileu não eram
demonstrativas e pouco valiam. Mas, antes de mostrar e sem estar ainda em condições
de fazê-lo, há no espírito do grande sábio uma percepção intuitiva que
basta [grifo nosso] para lhe dar uma convicção de que — certo ou
errado [grifo nosso], isto é outro assunto, que diz respeito ao progresso
da ciência — ele absolutamente não duvida. Tal foi o caso para o gênio
intuitivo de Galileu.”
Nesta
nota infelicíssima, onde se evidencia o empenho de glorificar um dos motoristas
do progresso da ciência, em detrimento do obscurantista Santo Ofício, não
reconhecemos o autor de Théonas, de Antimoderne, de Trois Réformateurs,
de Reflexions sur l’Intelligence et sa vie propre, não reconhecemos o
severo e exigente filósofo que nos ensinou, entre mil coisas, esta lição que
já escrevi atrás e agora repito: a honra e dignidade do cientista não
consiste em ter acertado (ou quase acertado) a proposição que outros
demonstrarão, e que ele mesmo, dizendo que a sente como se a tocasse, não
sabe provar; não, mil vezes não: a honra do cientista, do filósofo e do teólogo
não é de natureza esportiva ou lotérica, não consiste em acertar à tort
ou à raison, mas consiste essencialmente em dar as razões de sua proposição.
Os
tomistas, e com toda a razão, costumam ficar irritados quando os franciscanos
lhes dizem, ou melhor, lhes diziam com garbo que Duns Scotus acertara na
questão da Imaculada Conceição da Virgem Santíssima, enquanto Santo Tomás
perdera o ponto. Volvendo com saudades aos bons tempos em que dominicanos e
franciscanos discutiam essas coisas, lembro-me de um O.P., não sei se
Garrigou-Lagrange ou Gardeil, que chegava a asseverar que no encaminhamento da
proclamação do dogma valeram mais os argumentos refutadores de Santo Tomás do
que os surtos intuitivos com que Duns Scotus, à tort ou à raison,
afirmava.
No
caso Galileu, para terminar, direi que hoje, melhor do que nunca, estamos em
condições de apreciar a real e profunda intuição com que o Santo Ofício
sentiu a presença do monstro — o cientificismo e não a ciência — que
arrombava as porteiras e se precipitava para devastar uma civilização. Mas
nossa constatação não é triunfalista, porque são muito poucos os que
participam dela; é antes melancólica, e tem todo o travo de uma batalha
perdida.
Tomamos
para este tópico o título de um belo livro de Marcel de Corte, em perspectiva
em pouco diferente, para desenvolver um pouco mais a questão que atrás
abordamos, e que agora se torna mais oportuna (estamos no século XVIII),
porque, enquanto na superfície da história os amadores do nada, que o tomam
pelo tudo, se entretêm em ler a letra F ou H da Enciclopédia nos salões de
Madame Geoffrin, e a atualidade se enfeita com nomes de luz, iluminismo, enlightehment,
aufklärung, nos subterrâneos do nada cavam os alicerces da civilização
e preparam a Revolução.
Vimos
atrás que as coisas de qualquer ciência podem ser possuídas com ciência própria
e autônoma, adquirida e assimilada profundamente, ou com ciência heterônoma,
ou informação transmitida e recebida apenas com fé humana. Na filosofia e na
matemática só há real conhecimento quando o mestre ou o informante podem ser
despedidos e o estudioso se apodera da verdade compreendida e demonstrada, que
se torna sua, esposa de sua inteligência, sem nenhuma interposição. Nas ciências
dos fenômenos, a rigor, também só possuem a certeza menor de suas correlações
aqueles que observam e experimentam diretamente, e conduzem todas as suposições
à certeza dos sentidos, vista, apalpada, medida. Mas esse acesso à experiência,
à exaustiva prova experimental em que se consumiu parte da vida de Pasteur para
desfazer a ilusão da geração espontânea da vida, ou o acesso ao círculo
meridiano e ao espectroscópio sideral é difícil, e muito escassa será sempre
a parte de um povo que lá chegará. A maioria saberá quase tudo de oitiva; e o
mais assustador é que, crescendo o campo das coisas sabidas nesta espécie de
saber, como começou a crescer vertiginosamente desde a Renascença, crescerá
na mesma proporção o número de homens que falarão nessas coisas com grande
entusiasmo, sem todavia as saberem com ciência própria e autônoma, mas apenas
com fé humana ou por terem lido no jornal. E entre esses faladores da ciência,
que só a possuem por uma espécie de “cola”, incluo os intelectuais que
falam no movimento diurno da Terra sem nunca terem aplicado um olho à ocular de
uma luneta de círculo meridiano.
Receando
que o leitor não tenha ainda apreendido o perigo em toda a sua profundidade,
sou forçado a entrar em considerações sobre a vida da inteligência e suas
exigências próprias. Assim como o olho foi dado para ver a luz, e o ouvido
para apreender o som, a inteligência nos foi dada para, de início, em sua
primeira operação, apreender os inteligíveis, isto é, para ver por si mesma
e não pelos outros o que as coisas são, e daí passar aos juízos que predicam
alguma coisa de um sujeito, e aos raciocínios que tecem e tramam as conexões
do saber. Tudo isto a inteligência quer fazer por si mesma, a partir dos
inteligíveis vistos nas coisas sem nenhuma interposição. Esse relacionamento
autônomo com o objeto constitui propriamente a liberdade da inteligência, e se
separa por um abismo da chamada “liberdade de pensamento”, que consiste no
suposto e arrogante direito de dizer que pensa o que quer, ou de pensar que
pensa o que não chega a pensar.
A
inteligência quer tornar-se o objeto conhecido numa união muito íntima, muito
perfeita e muito casta, e sofre quando as regras da convivência lhe pedem que
aceite como verdadeiro aquilo que como tal ela própria não pode ver. Sofre,
mas compreende que a vida em sociedade é própria do homem, e que essa feição
essencialmente política do homem acarreta uma divisão no trabalho e uma divisão
no saber. As humilhações impostas à inteligência se transformam em
cordialidade, em amizade cívica, em filia, e neste transpasse a alma se
conforta e aprende a conformar-se com um grande número de saberes possuídos
por fé humana. O perigo da inteligência se contorna e até se transforma em
riqueza na ordem do amor enquanto a sociedade consegue manter a inflação do
consabido controlada e submetida a uma sabedoria, e enquanto a sociedade
consegue manter laços de amizade cívica. Quando se rompem os dois equilíbrios,
quando a soma crescente de dados enciclopédicos sabidos por toda a humanidade
se agigantam e se desprendem de qualquer sapiência mais alta, e quando se
instila na Polis, em lugar da filia, a regra da competição ou a
luta de classes, então a inteligência desvaria, se avilta, desespera, e passa
a encher-se de gases, e indigestar-se de um milhão de nadas que, somados e
multiplicados, dão noves fora nada. E os hospícios se povoam; e ao cabo de
algum tempo o mundo se transformará no grotesco e sinistro conto de Edgar Poe
em que os últimos sensatos estarão nas camisas-de-força, e os loucos na direção
e administração do planeta.
Em
palavras mais sóbrias, o cientificismo, e o conseqüente enciclopedismo, é uma
violação, uma curra da inteligência, que não pode ser praticada em dimensões
civilizacionais sem as conseqüências de uma inimaginável massificação do
homem, porque cada vez mais a inteligência renunciará à sua vida própria, em
favor da tirania do sabido pelo homem coletivo. No século XVIII os
“escavadores do nada” começaram a difundir a “libre-pensée”,
começaram a praticar com entusiasmo o regime de esvaziamento da inteligência:
no glorioso século XX em que temos a honra de lacrimejar e de nos debater, já
as conseqüências inimagináveis se vão tornando rotinas sem espanto nem nojo.
E quem já está demasiado idoso para habituar-se a andar de quatro, sofrerá
uma pungente nostalgia da posição ereta, mas em compensação sofrerá menos
tempo e melhor aprenderá assim a desprender-se deste mundo, cujo ofício é ser
vagamente absurdo, e passar.
As
Sociétés de Pensée e a Revolução
Ninguém
até hoje analisou melhor do que Augustin Cochin esse processo de esvaziamento
da inteligência que se operou na ação capilar das sociétés de pensée
do século XVIII, o qual, para os historiadores superficiais, continua a deter o
campeonato do verniz.
“É
no declínio do reino de Luís XV que o fenômeno se difunde na França. O
Grande Oriente se constitui em 1773. As sociedades secretas e ordens diversas:
Escoceses, Iluminados, Sweden-borgeanos, Martinistas, Egípcios, Amigos
Reunidos, disputam adeptos e correspondentes. Vê-se enfim, de 1769 a 1780, sair
da terra centenas de pequenas sociedades semidescobertas, autônomas em princípio,
como as lojas, mas agindo em comum, como também as lojas constituídas à
semelhança delas e animadas pelo mesmo espírito ‘patriota’ e ‘filósofo’,
que escondia mil objetivos políticos semelhantes, sob pretexto oficial de ciência,
beneficência ou divertimento [...]. O reino dos salões da maledicência
espirituosa e elegante passou. Começa agora o das sociedades do livre
pensamento.”[9]
E
adiante Cochin nos apresenta com incisiva configuração o objeto, ou melhor, o
não-objeto dessas academias:
“Elas
não são apenas agência de notícias, mas sociedades de encorajamento ao
patriotismo, tribunais de espírito público. Para atingir esse fim, criam uma
república ideal à margem e à imagem da verdadeira, tendo sua constituição,
seus magistrados, seu povo, suas honras e suas lutas. Ali se estudam os mesmos
problemas políticos, econômicos etc. Ali se trata de agricultura, de arte, de
moral, de direito. Debatem-se as questões do dia, julgam-se os homens
eminentes. Em resumo. esse pequeno Estado é a imagem exata do grande, com uma só
diferença: não é grande, não é real.
“Seus
cidadãos não têm interesse direto nem responsabilidade engajada nos negócios
de que falam. Seus decretos não passam de desejos ou votos, suas lutas são
meras conversações, seus trabalhos são jogos. Nesta cidade das nuvens, faz-se
a moral longe da ação, a política longe dos negócios: é a cidade do
pensamento.”[10]
Augustin
Cochin grifa o termo pensée, que melhor do que a tradução portuguesa
exprime o vazio desse processo mental em que a inteligência se “libera” —
se podemos empregar esse verbo ainda carregado de certa nobreza para exprimir tão
degradante capitulação — do conhecimento real ou da reflexão, para
comprazer-se numa efervescência verbal que mal recobre a indigência do espírito
que à exigente procura da verdade e do bem prefere essa liberdade que
relativiza tudo exceto seu próprio vazio. O liberalismo, que na Inglaterra, com
Locke, começa numa depravação do conhecimento que todavia ainda se apega à
experiência e ao conhecimento, no país que tem a vocação da inteligência
haveria de começar e de se estender ainda mais baixo, desprendido da própria
experiência e reduzido ao livre jogo de opinião, à doxia que não faz
questão de ser ortho nem hetero, coroado ou paramentado este
pouco ou quase nada com o termo mágico: “pensée, libre-pensée”.
“Há
aí um fato geral que é preciso estudar em si mesmo se quisermos compreender
os efeitos do início da Revolução. Todas essas Sociedades têm o mesmo caráter:
são Sociedades ‘igualitárias’ de forma, e filosóficas de objeto, o que
hoje chamaríamos Sociedades de ‘livre-pensamento’. Formavam o arcabouço
material da ‘república da letras’ e deram à ‘filosofia’ uma consistência,
um vigor, um império sobre a opinião sem exemplo até então.
“Com
efeito, embora ideal, o novo Estado, a ‘república das letras’ ganhou, entre
1760 e a Revolução, uma prodigiosa extensão [...]. Ora, não está aí um
fato capital, e desprezado por demais, no fim do século XVIII?
“Este
estado de coisas, a própria existência das Sociedades de Pensamento, da casta
de opinião que nelas se desenvolvia, das condições especiais em que punham os
autores e o público, tudo isso teve efeitos muito graves sobre o movimento das
idéias: porque impunha de início, e sem apelo, aos autores e ao público o
ponto de vista ‘intelectual’, irreal.
“Nunca
talvez a corrente geral das idéias, da literatura esteve tão afastada das
realidades, do contato com as coisas, como nesse fim de século. Basta mencionar
filósofos políticos como Rousseau e Mably, historiadores como Raynal,
economistas como Turgot, Gocernay, e a escola do laisser-faire, homens de
letras como La Harpe, Marmontel e Diderot.
“É
assim que nasce o filosofismo. A prática da “libre-pensée” tem
graves conseqüências, desde logo, para começar, na ordem intelectual. Os
privilegiados esquecem seus princípios; poderíamos citar, do mesmo modo, o
cientista a esquecer-se da experiência e o religioso a esquecer-se da fé. O
fato da experiência, o dogma religioso, tais são com efeito as duas ordens de
fato impostas brutalmente de fora à nossa inteligência, e dispostas a deter o
impulso da ‘filosofia’, ou, como se diz hoje, do pensamento livre. A
‘filosofia’ (ou livre-pensamento) derrubará estes entraves à liberdade: a
experiência, a tradição, a Fé.”[11]
Sem
pretendermos reduzir a este veio todo o sistema fluvial de causas históricas,
podemos talvez afiançar que Augustin Cochin, no que se refere à preparação
da Revolução Francesa, nos dá a fortíssima impressão de estar acertando nos
pontos mais feridos e doloridos de uma civilização em processo de niilização.
E eu diria que é en creux que se prepara a Revolução. Os “horríveis
trabalhadores” vistos por Rimbaud, numa espécie de retrovisor, não erigem,
cavam. São os “escavadores do nada” vistos por Bloy. E a maior impostura da
história, a ser ultrapassada pelo comunismo, não é uma explosão — é antes
uma implosão.
[1]
Gustavo Corção, A Descoberta do Outro, AGIR.
[2]
Jacques Maritain, De l’Église du Christ, Desclée de Brouwer,
1970, pp. 345 e segs.
[3]
S. J. Mason, Histoire de la Science, Armand Colin, 1956, p. 10.
[4]
Revista Permanência, número 41, p. 22.
[5]
Lewis Mumford, The Megamachine, em The New Yorker, 10-17 de
outubro de 1970.
[6]
Oliver Brachfeld, Los Sentimientos de Inferioridad, Luiz Mirade,
Barcelona, 1959, pp. 24 e segs.
[7]
Jacques Maritain, op. cit.
[8]
Ibid.
[9]
Augustin Cochin, La Révolution et la Libre-Pensée, Plon, 1924, p.
XXIX (“Introduction”).
[10]
Ibid., p. XXX.
[11]
Ibid., p. XXXIII.
O Século do Nada,Rio de Janeiro, Record, pp. 119-138