DOIS E DOIS SÃO QUATRO
Gustavo Corção
No
primeiro sábado do mês, para cumprir minha devoção por Nossa Senhora de Fátima,
procurei um confessor numa igreja que deixara de freqüentar, há alguns anos,
por motivos que dispensam fastidiosas explicações. Diziam os persistentes freqüentadores
que tudo por lá melhorara, com a saída de 3 ou 4 jovens loucos. Quem sabe?
Lembrei-me do velho Pe. X, homem simples e bom, cabeça branca, manso e ingênuo.
Um dia, nos tenebrosos tempos em que o ISPAC energicamente se empenhava em
perverter padres moços e freiras simplórias, subia eu a Rua Cosme Velho quando
avistei o Pe. X, que vinha ao meu encontro feliz e aureolado de novas idéias.
Saía do ISPAC e logo que me viu apressou o passo e generosamente veio
ensinar-me o que acabara de aprender:
—
Sabe? Agora é tudo explicado pela Evolução. Os padres professores estudam
muito e explicam que tudo é diferente depois do Concílio. Diante da
transfigurada felicidade do padre, senti a refulgente evidência da inutilidade
de qualquer debate. Atirei-lhe pelas costas uma Ave-Maria, “às traição”
como dizem lá por dentro do Brasil, e estuguei o passo, já mais atraído pelo
café com pão do que preocupado com a sorte do Pe. X. Passaram-se os anos como
costumavam passar nos gloriosos tempos pós-conciliares e eu confesso que
enterrei o Pe. X no esquecimento, ou perdi-o de vista, sob o volume de escombros
ex-católicos e de cadáveres de ex-padres insepultos. Ultimamente tive notícias
de que o Pe. X andava muito triste. Alegrei-me eu. Quem sabe se não poderia
procurar o Pe. X e pedir-lhe o Sangue de Jesus para o perdão de meus pecados.
Tomada a resolução, entrei na sacristia silenciosa e deserta. No altar à
direita transcorria a missa das oito. Um moço apiedado de meu ar desamparado
disse-me que o Pe. X estava na sala em frente; e efetivamente lá estava ele,
todo branco a arrumar não sei o quê num armário: pouco mudado, mais grave,
mais sério, mais branco. Quando me viu, alegrou-se e quase correu ao meu
encontro. Dias antes eu publicara o artigo Falsa Bondade, que anos atrás,
certamente, escandalizaria o Pe. X. Com surpresa ouvi-o:
—
Muito bem! Muito bem! Continua! Coragem.
Quando
fiz breve alusão à pressão que sofrera o Governo da Espanha, não só dos países,
mas do próprio Vaticano. O Pe. X ficou mais rosado e com voz severa começou a
falar para interlocutores invisíveis:
—
Palhaçada! Palhaçada! Olhe, quer saber o que penso? Só isto: dois e dois são
quatro. E a verdade de Deus não se reforma. E agora, voltado para mim, firme e
didático, abria os dedos das duas mãos em VV, como Churchill fazia para
anunciar a chamada vitória democrática que entregaria o mundo à URSS, mas
para repetir: — Dois e dois são quatro.
Disse-lhe
que desejava confessar-me e ele logo me indicou um canto de sala onde eu me
ajoelhei ao lado de sua cadeira: — ouviu-me. Prometi a Deus o miserável firme
propósito de minha fragilidade que só na força d’Ele poderia cumprir tão
audaciosa promessa. Deus meu! Deus meu! E logo depois das palavras que desciam
para mim do alto do Calvário, o Pe. X volveu ao seu solilóquio: — Maus
tempos. Maus tempos. — Só temos agora diante de nós o Martírio. Estamos no
Apocalipse. Continue a luta até o fim e Deus dará o necessário.
Na
porta que dá para o jardim, despediu-se de mim, risonho e como se entre nós
dois houvesse um segredo delicioso e divertido; tornou a abrir os dedos e
repetiu: — Dois e dois são quatro.
Na
volta para casa sentia arder-me o coração, e em mais de uma esquina como nos
caminhos de Emaús pareceu-me que Alguém me repetia, com infinita doçura e
infinita firmeza, aquela tabuada divina: — Dois e dois são quatro.
Em
casa, na escuridão e no silêncio de meu escritório, estive a considerar, ora
uma ora outra das duas alternativas: o martírio, ou quem sabe? A tênue esperança
humana de uma volta ao ponto em que todos se desviaram da “diritta via” e
tomaram o caminho do Inferno.
Não
é possível. Em todos os itinerários humanos o que mais prevalece é sempre a
volta. Mesmo sem pecado, a simples necessidade do trabalho de cada dia nos
obriga a sair de casa, a perder nossa integridade e nosso nome para espalhar
pela cidade nossa alma estilhaçada. Depois dessa dispersão, desse pluralismo
de títulos e nomes minúsculos o homem empreende a parte mais alta e mais nobre
de sua jornada: a volta para casa. O desvairado mundo moderno pensa que o homem
é mais homem, mais elevado, quando sai de casa e se empenha na luta que
contribui para o Produto Nacional Bruto e para o progresso nacional. A casa
deixou de ser o Porto Seguro, o Paraíso Perdido, o Jardim Fechado, o lugar
maravilhoso, onde, aberta uma porta-sagrada, o homem recupera o nome de seu
batismo, chama por seus nomes os animais domésticos e ouve o passo da
companheira nascida de seu sonho de amor.
Mas tudo isto e mais alguma coisa que possa dizer da casa dos homens é pó ou nada quando pensamos numa volta à Casa do Pai que corre ao nosso encontro e nos cobre de beijos. Pater! Pater! Pater! Não é impossível pensar num volta maior e mais animosa do que todas as cruzadas: vejo milhões de Padres X, milhões de bispos e até dezenas de cardeais — todos a seguirem um Papa mais branco e mais firme que o Pe. X a dirigir a Cruzada da Volta, parando de vez em quando nas curvas do caminho para abrir os braços e os dedos, clamando: — Dois e dois são quatro! Amigo! Friend! Cantemos um cântico novo, às avessas da marcha progressista da Nona Sinfonia; cantemos a alegria da volta à verdade e à bondade de Deus.