“SOU
AMIGO DAS ESTRELAS”
Gustavo Corção
Foi
num pára-choque de caminhão que li ontem estas palavras líricas.
Entusiasmado, respondi com meus botões: —
Também eu! Também eu! E num arroubo de saudades, senti-me com cinco anos de
idade, num jardim da Glória, entre outros meninos. Seria noite de janeiro e o céu
resplandecia. Comecei então a dizer aos outros meninos os nomes das estrelas
maiores: Aldebarã, Belatrix, Rigel, Archenar... Meu saber astronômico vinha
das lições do poeta Emílio Kemp, que jantava em nossa casa todas as noites
que se indispunha com a mulher. Dizia que vinha respirar um pouco, e às vezes
ficava conversando conosco e falando de todas as coisas.
Estava
eu no jardim, a transmitir meu saber, quando ouvi um riso de homem e me senti
levantado pelos braços a não sei quantos metros de altura. Eram dois oficiais
de Marinha, e o que me levantava, com voz zombeteira, perguntou-me: “Quantas
estrelas tem o céu?”.
Escarlate,
não soube responder. Até hoje me volta a cena, a voz, e a pergunta divertida.
Por quê? Parece-me que estava a me gabar do que sabia e do que não sabia, mas
o amor pelas estrelas era puro e verdadeiro. Aos dez anos sonhei possuir uma Astronomia
Popular, de Flammarion, que vira em casa de um jornalista amigo de meus
pais. Ninguém sabia meu segredo. Nesse tempo eram magérrimas as vacas: meu pai
adoecera gravemente; uma noite minha mãe chegou muito tarde e, vendo-me na cama
acordado, ajoelhou-se junto de mim e disse-me chorando: —
Estamos agora sozinhos... eu com vocês... no mundo. E passamos a viver uma
gloriosa pobreza que até hoje ilumina todas as lembranças de minha infância.
Como realizar as núpcias astronômicas com que sonhava? Juntava jornais de toda
a vizinhança e vendia-os na venda de “seu” Cardoso. Tostão por tostão, em
três anos ou mais consegui a soma fabulosa de trinta mil réis que mamãe
guardava. Não havia nessa época de nossa história a inflação que roeria
meus tostões e destruiria meu sonho. Mas era tempo de exame quando consegui o
total, e nesses dias, lá em casa, tudo ficava suspenso:
—
Mamãe, onde está a tesoura de unhas?
—
Depois do exame.
—
Mamãe, onde está o “Tico-Tico”?
—
Depois do exame.
A
Astronomia Popular ficou também para
depois do exame; mas então aconteceu um milagre, hoje incompreensível. Nesse
meio tempo aprendera eu o francês, e a edição original de Flammarion custava
a terça parte da tradução portuguesa. Por isso, depois do exame, quando
cheguei em casa, num deslumbramento indescritível, vi diante de mim, em vez de
um só, três grossos volumes: Astronomie Populaire, Étoiles du Ciel, Terres du Ciel. Creio que
nunca senti na vida felicidade igual. Durante três ou quatro dias passei horas
perdidas no fundo do quintal, sem consegui ler, sem ao menos folhear
metodicamente um só dos três livros. Largava um e tomava outro.
Anos
depois passei a desejar ardentemente uma luneta astronômica. Já ganhava uma
libra por mês, ensinando matemática a alunos vadios. Mas não consegui mais
encontrar em mim aquela força da infância. Perdi-me em outras direções,
troquei as estrelas do céu pelas estrelas da terra. Foi muito mais tarde, já
perto dos quarenta anos, que comprei a luneta astronômica. Estava de viagem
pela Europa, quando em Berlim, numa tarde, dobrando uma esquina, vejo numa
vitrina uma pequena luneta astronômica plantada em seu tripé a me fitar com
seu grande olho aberto para o infinito.
Veio-me
uma rajada de infância, e então eu me senti na obrigação de comprar aquela
luneta e dá-la de presente ao bom menino que em vão sonhara com ela nos dias
de sua infância. Achei que ele merecia; mas logo depois, ai de mim, em vão
procurei onde estava o menino que queria sondar os abismos da noite.
O
leitor, que receio estar enfadado, com estas reminiscências, aqui perguntará
por que diacho não estudei eu a astronomia? Estudei. Estudei, sim senhor. Não
sei se o papel dará para contar essa história. Prefiro, antes disso, contar a
visita que fiz ao Observatório, com meus pais e o bom poeta Emílio Kemp.
Voltemos aos dez anos de idade. Estamos num terraço onde, contra a noite escura
e transluminosa, avultava o perfil regular e solene da cúpula.
Em
certo momento minha família ficou a um canto, e na outra extremidade do terraço
eu via dois astrônomos conversando. O mais velho gesticulava e falava com
vivacidade. Imaginei que estivessem a comentar a beleza das nebulosas espirais
ou estrelas duplas, e aproximei-me tremendo de emoção, com receio de não
entender bem aquela língua dos anjos. E quando cheguei perto, sem ser
percebido, ouvi o astrônomo dizer ao outro com voz ácida e cortante:
—
Ele me pagará o que fez. Eu não esqueço. Hei de urinar em sua sepultura!
Recuei
apavorado, e senti-me profundamente infeliz como se assistisse a uma inexplicável
e súbita apostasia de todos os sacerdotes de uma religião fabulosa. É claro
que sentia tudo isto com outras palavras. Creio que decepcionei meus pais e o
bom poeta que procurava o brilho de meus olhos. Naquele momento, as estrelas do
céu perderam o interesse para mim, porque eu estava não somente magoado, como
também intrigado com a descoberta bizarra, fantástica que acabava de fazer.
Os
astrônomos eram uns pobres homens feridos, que se indispunham uns com os
outros, como o bom poeta se indispunha com a mulher. Lembro-me bem. Essa idéia
de que os homens se indispunham uns com os outros esteve naquela noite,
e nos dias seguintes, a me perseguir como obsessão. E foi por isso que a
minha felicidade astronômica ficou toldada, e não pude apreciar devidamente os
anéis de Saturno. Entre mim e o singular planeta se interpunha a figura
machucada de um astrônomo que prometia urinar na sepultura de outro astrônomo.
Mas
não foi este episódio que me afastou da astronomia. Foi antes a necessidade de
não morrer de fome, como de outra vez, se Deus quiser, lhes contarei.
(04/05/1968,
republicado em "A Tempo e Contratempo", Editora Permanência)