O HOMEM E A NATUREZA
Gustavo
Corção
A
julgar pelos vestígios que deixaram e pelas amostras de humanidade dispersa e
degradada que os portugueses encontraram nas terras do Brasil, o homem paleolítico
vivia num nível cultural de quase exclusiva e obsessiva preocupação de seu
relacionamento com o mundo exterior e inferior. Vivia em luta com o meio. Não
é fácil reconstituir e imaginar essa situação em que um ser dotado de dimensão
racional, da mesmíssima espécie que hoje nos diferencia dos animais, estava
obrigado a curvar a razão ainda impotente no domínio dos elementos, sem o
socorro dos instintos que os animais possuem para adequar-se ao meio de mesmo nível
ontológico. O homem não se espiritualizou gradativamente, isto é, não passou
do ser não-espiritual para o ser espiritual por etapas contínuas ou discretas
como pensam que pensam os evolucionistas ou como sugeriu o festejado Teilhard de
Chardin que, infelizmente para a Companhia de Jesus e para a Igreja, não foi
internado e metido numa camisa-de-força em momento oportuno.
Tal
transição do não-espiritual para o espírito, como se o espírito fosse uma
fina emergência da matéria, é um disparate metafísico. Aliás, o
evolucionismo, em que todos os habitantes deste século pensam que pensam, é um
disparate físico e metafísico: físico porque contraria a lei fundamental do
mundo físico que é a da entropia crescente; metafísico porque contraria o
lema: «nada passa da potência ao ato a não ser por algo que já esteja em ato».
É uma alucinação pensar (ou pensar que pensa) que os átomos de hidrogênio,
por acaso, e vencendo improbabilidades fantásticas que Borel e Boltzman
chamaram de extra-cósmicas, como apelido de impossível, se encontrem numa rosa
ou num gato; e ainda mais alucinatório é pensar que aqueles átomos, a mesmo título
que uma célula primeira tem no genotipo todas as virtualidades do fenotipo,
tenham um encaminhamento necessário finalizado e já no elétron solitário ou
no próton, possuam em ato um germe e uma intenção de se incorporar, mais
tempo menos tempo, num grão de areia, numa estrela, num cabelo de uma criança
ou numa lágrima de santo. Tudo viria do hidrogênio.
Deixemos
a evolução e reconsideremos os nossos pobres antepassados que tanto lutaram
para dominar a pedra e para vencer o urso. Sabemos que, após longo esforço
horizontal, o homem começou a imprimir na matéria do mundo as formas pensadas
no espírito. Emergem as civilizações e multiplicam-se prodigiosamente as
marcas impressas na matéria pela racionalidade do homem. Peço ao leitor que se
demore em imaginar esse grandioso espetáculo que foi a ascensão dos homens. Muito
antes de ouvir a notícia da próxima descida do Espírito de Verdade, que no
Domingo passado ouvimos, a humanidade usou fartamente o espírito do homem,
imagem e semelhança Daquele, e fartamente espalhou no mundo obras e feitos que
ela mesma, com toda razão, admira.
Mas,
ai de nós! Em certa curva da história, marcada pelo falso humanismo da
Renascença e pela Reforma – cujos malefícios sabemos hoje apreciar muito
mais vivamente e muito mais dolorosamente do que no século XVI – a humanidade
passou a admirar-se a si mesma de um modo vertiginoso e idolátrico. Estamos
repetindo em quatro séculos o mito de Narcisus; ou estamos, depois de milênios,
tentando uma reprise do Pecado Original.
E
agora vejam o estranho resultado: depois de tão maravilhosas conquistas científicas
e técnicas, e pelo fato de se ter inclinado obsessivamente para as coisas
inferiores e exteriores, o homem submete o espírito ao serviço delas,
transubstancia a soberba em concupiscência e produz o monstruoso mundo tecnocrático
que tem, no movimento helicoidal da história assim traçado, o mesmo meridiano
do homem das cavernas, a mesma submissão ao mundo material, mas em nível fantástica
e alucinatoriamente mais elevado.
O
senso comum e a reta teologia nos advertiam de que tamanho desenvolvimento
tecnocrático seria letal para o homem sem o proporcionado desenvolvimento
civilizacional, e portanto espiritual.
Infelizmente
para nós, habitantes deste século, Satã ganhou a batalha desses quatro séculos.
A guerra, não ganhou nem ganhará; mas a batalha, o episódio, a etapa, ele
contabilizou e nos deixou estupefatos diante desse mistério dos mistérios: o
mal e o consentimento de Deus.
Em
torno da Igreja, os maus levitas recém-egressos, ou semi-apóstatas, querem
desespiritualizar a Igreja de Cristo e do Espírito Santo, como pensam que os
homens já desespiritualizaram o mundo. Assistimos a essa tragédia desenvolvida
em dois planos: um assalto à Igreja, uma crise in
sino Ecclesiae e a disputa pela hegemonia de uma civilização deformada e
deformadora do homem. E aqui já não se divide o mundo em dois hemisférios, o
da dureza totalitária e o da moleza liberal. Na dissolução do humano andam os
adversários de mãos dadas.
Na marcha acelerada que a tecnocracia imprimiu ao progresso material, a humanidade cada vez mais se dobra e mais se inclina para a terra. Alguns mais alvoroçados não escondem certa impaciência de atingirem o ideal de andar de quatro. A maioria evolui numa espécie de tabes dorsalis, cujos primeiros sintomas neurológicos se manifestam pela dificuldade da genuflexão. De um modo ou de outro está em perigo a postura ereta do homem, que só se mantém quando a espinha dorsal da alma é sustentada pela virtudes teologais.
(1972)