CRISTIANISMO E HUMANISMO
Gustavo Corção
Em
artigo intitulado Humanismo Cristão, e publicado no GLOBO de 23-11-1975, o Ministro Júlio
Barata referiu-se a meu nome e a minha obra em termos extremamente lisonjeiros
que exigem meu agradecimento, mas que não me podem dispensar de mais algumas
palavras de penosas retificações.
Foi nos idos de 1952 que conheci, de longe, o professor Júlio Barata, quando tive o prazer de assistir à sua aula e defesa de tese no concurso para a cátedra de Filosofia do Colégio Pedro II. Era sem sombra de dúvida o mais competente dos candidatos, mas a banca examinadora, com uma grosseira e escandalosa injustiça, deu as mais altas notas a um Centauro, que da Filosofia só conhece os honorários. Embora em campos políticos opostos, fiz questão de homenagear o injustiçado, com meu inútil protesto publicado dias depois nas colunas dos jornais. Trago à lembrança do professor Júlio Barata este remoto testemunho para reforçar a cordialidade e o respeito em que coloco hoje meus agradecimentos e minhas inevitáveis discordâncias.
Eis
a passagem do artigo em que o Ministro Júlio Barata me coloca ao lado de
Maritain numa homenagem lisonjeira que, entretanto, me impõe o dever de uma
retificação: “Para esclarecimento do que seja humanismo cristão, nada
melhor do que as obras de Jacques Maritain sobre vários aspectos da Filosofia
Moral, e, em nossa língua, o livro Dois Amores — Duas Cidades de Gustavo Corção, no qual o grande
escritor nos mostra como a praga do nominalismo devastou a seara da Filosofia e
confundiu o homem exterior com o homem integral, implantando no ambiente
cultural e político a impostura do humanismo marxista e quejandos”.
Ora,
desde nossos últimos livros e artigos, e desde a fulgurante evidência dos
efeitos causados por posições tomadas nos anos 30, e sobretudo depois do que já
escrevi no O Século do Nada,
tornou-se clara a necessidade de optar entre os autores de Humanismo
Integral e Dois Amores — Duas
Cidades. São dois livros que se opõem no que têm de principal, e por isto
são inconciliáveis nas questões colocadas no elevado plano em que se estudam
as relações entre a Igreja e o Mundo, e o sentido da História visto não em
termos do êxito temporal humano, mas em termos das relações da História com
a sorte do homem. Escrevi Dois Amores —
Duas Cidades não somente para situar na infiltração nominalista toda a
causa da crise do cristianismo, mas principalmente para mostrar que, no apogeu
do milagre da Idade Média, uma misteriosa reprise do pecado original levou os
homens da cristandade a um levante coletivo, mais gravemente caracterizado pelo
“humanismo” do que pela reforma. Com apoio nas mais luminosas lições da
IIa IIae de Santo Tomás, esbocei um pequeno tratado sobre o amor-próprio, sem
o qual nada se entende desta civilização do homem exterior que nega a
praticabilidade do cristianismo em nossos tempos, sem a interposição de um
humanismo que amoleça as durezas da doutrina cristã e arredonde as arestas da
Cruz.
Por
incrível que pareça, Jacques Maritain no Humanismo Integral começa por
atestar a impraticabilidade do tomismo nos problemas modernos. Releia, leitor, o
Avant-Propos dessa obra que em 1936
causou pasmo no mundo católico. Mas releia-o com a inteligência da Fé e com a
amarga ciência da moderna experiência. Eis a estranha declaração feita em
1936 pelo mesmo filósofo que seis anos antes escrevia Le
Docteur Angélique, onde todo o capítulo III é consagrado para provar que
é sempre Santo Tomás o doutor dos tempos modernos. Mas agora estamos em 1936,
que, em seu admirável Notre Avant-Guerre,
Robert Brasillac denuncia como ano de loucuras e disparates. E na convivência
de Emmanuel Mounier, com quem se corresponde durante dez anos, Jacques Maritain
escreve no Avant-Propos de Humanismo Integral estas linhas que todos nós engolimos sem sentir
seu esquisito sabor: “Nous
ne prétendons pas engager Saint Thomas lui-même dans des débats ou la plupart
des problèmes se présentent d’une façon nouvelle. Nous n’engageons que
nous, encore que nous auyons conscience d’avoir puisé notre inspiration et
nos principes aux sources vives de sa
doctrine et de son espirit”.
Ora,
apesar da reserva das últimas linhas, o que fica patente é que Maritain achou
necessário despir-se da armadura de tomista, ou de católico como diria Henry
Bars, para tratar “d’une façon nouvelle” os problemas dos “Tempos Modernos”.
Santo Tomás é assim declarado inadequado para tais estudos. Maritain não quer
engajar “Saint Thomas lui-même”
(!), e depois escrever essa frase sem sentir a chocante impropriedade do termo lui-même,
que invoca não a obra, mas a pessoa de um santo morto há sete séculos, diz
que nesta obra de “recherches” só
se engaja a si mesmo. Sem a menor intenção de equacionar os valores das obras,
lembro que escrevi Dois Amores — Duas
Cidades para desenvolver a idéia de Santo Agostinho desenvolvida e
utilizada por Santo Tomás, pela qual o vivere
secundum carnem de São Paulo deve ser entendido como vivere secundum seipsum, coisa que constitui a essência do amor-próprio,
fonte e origem de todos os pecados. O grande Pe. Berto, morto há dois ou três
anos, deixou a melhor e mais arrasadora crítica contra Teilhard de Chardin na
observação de seu isolacionismo. Todas as suas moderníssimas recherches,
ele as faz sem engajar a Companhia de Jesus, sem citar um mestre, um doutor, um
irmão. E note-se que o admirável Pe. Berto escreveu estas linhas contra a
impiedade de Teilhard de Chardin, para contrasta-la com a fidelidade de Jacques
Maritain, que, vindo de caminhos tão tortuosos, senta-se aos pés de Santo Tomás.
Na
época em que escrevi Dois Amores — Duas Cidades não tive clara consciência de estar
escrevendo um livro oposto ao Humanismo
Integral de Maritain. Hoje a evidência é solar e dolorosa. Maritain,
dizendo em seu Avant-Propos, que
coloca sua obra no plano da filosofia prática, na verdade despoja a matéria
tratada de toda a seiva Mística e teológica, e com isto tenta afirmar a
praticabilidade de um mundo que se afastou de Deus graças a um humanismo que é
o pseudônimo do grande pecado desta civilização apóstata. Em muitos pontos
nossas obras se opõem, porque não faço outra coisa todos os dias, senão
reafirmar minha confiança no cristianismo dos Santos, dos santos papas, santos
doutores, santos mártires — no cristianismo de Jesus, Maria e José.
E
a par dessa renovada e reafirmada confiança no cristianismo da Cruz e do
Sangue, monotonamente reafirmo minha aversão por essa civilização que se
gloria no homem exterior.
E
a todas as divergências que marcam as duas obras e os dois autores em questão,
não posso deixar de assinalar uma curiosa e significativa oposição.
Enquanto minha obscura obra termina numa glorificação do Papa São Pio X, e até transcreve grande parte da admirável encíclica que encontrei no Antimoderne de Maritain de 1922, a sensacional obra de Jacques Maritain, que fez sucesso em 1936 e em cujas páginas seria esdrúxula a simples menção do nome de Pio X, estava fadada à glória de ser traduzida pelo Cardeal Montini e tida como livro de cabeceira de Paulo VI.
(O
Globo,