IMPLICAÇÕES
DO EVOLUCIONISMO
Gustavo
Corção
O
século XIV foi o sombrio e tumultuoso século da peste negra, da guerra de cem
anos e da fragorosa ruína da civilização cristã. Nosso bravo século XX, em
lugar da sombria nuvem pestífera que pairou cem anos sobre a cristandade
agonizante, está sendo flagelado por uma outra nuvem, não menos sombria: a da
estupidez satisfeita e otimista. Os físicos, matemáticos, biólogos e astrônomos
que operam no nível de saber mais acessível e mais próprio para os trabalhos
coletivos, e também para o efeito acumulativo dos resultados, por seus sucessos
dificultam a exata apreciação do imenso progresso da burrice humana nas coisas
que concernem a vida espiritual.
A multiplicação dos meios
de informação em prejuízo dos meios de formação permite uma ilusão de
saber, que é uma das formas mais impertinentes da tolice. Todo mundo pensa que sabe o que leu nas notícias ou viu na
TV. Lendo a ida do homem à Lua, engolindo o fato, o farelo, a cinza, qualquer
um se sente participante da coragem dos astronautas, quando na verdade ele não
passa de um espectador que, de chinelo e pijama, engole voluptuosamente a
informação que em nada eleva a sua inteligência nem purifica a sua vontade.
Nessa categoria de ineptos
satisfeitos estão os milhões de pessoas que usam palavras filosóficas ou
tecnológicas com a tranqüila convicção de que entendeu, e até esgotou todos
os meandros do conceito designado por aquele termo. Ontem, por exemplo, ouvi no
barbeiro a conversa entre um oficial e um barbeado. Dizia o oficial barbeiro que era evolucionista, provavelmente para com
isto dizer que acolhe com sábia benevolência todas as transformações
federais, municipais, militares ou religiosas. Porque tudo evolui. O barbeado,
ou porque partilhasse a mesma fé, ou porque preferisse não discutir com quem
tinha uma navalha à altura de sua carótida, grunhia de tempos em tempos em
sinal de aprovação. Mas no termo de sua submissão, sacudindo o casaco e
erguendo a cabeça com um olhar satisfeito de soslaio para o espelho, o nosso
homem abriu-se: ele também era evolucionista. E ia desenvolver suas convicções
quando o barbeiro desdobrou sua toalha ou alva no novo freguês que queria
cabelo aparado. Eu também terminava minha dose de tranqüilizante, que é o
barbeiro, principalmente quando ele arremata, com uma tesoura carinhosa, os
pelos subversivos do pescoço e das orelhas.
Na rua voltou-me a idéia do
evolucionismo professada em dois tons por dois bravos habitantes do século XX.
E pus-me a interpelar barbeiros e barbeados invisíveis e evolucionistas. Saberão
vocês todas as implicações, todas as conseqüências, todos os corolários e
todas as decorrências da fé tão imprudentemente afiançada e concentrada num
vocábulo? Provavelmente o que todos vocês já observaram, com admiração e
veneração, é o comesinho e antiquíssimo fenômeno da transmutação das
coisas: abertura do grão de semente, surgimento de um caule entre dois cotilédones,
alongamento do dito caule e mais tarde a flor, o fruto e em torno desse digno
mundo vegetal que se move com a vagareza recomendada por Aristóteles aos reis,
o mais quieto e trepidante mundo animal empenhado no entredevoramento. No céu o
Sol e a Lua, para os observadores superficiais que não prestam atenção às
estrela, também se movem. A Lua muda de fase, mas o movimento dos corpos
celestes mais convida a pensar na regularidade do que na evolução. Mas vejam
os homens. Ah! Ah! e vejam as mulheres, porque a elas é que se bem se aplica o
verbo ver, já que, enquanto nós homens perdemos tempo em catar palavras sábias,
elas, na maioria dos casos, contentam-se em serem vistas. E os padres? Em
resumo: tudo muda. Será que os evolucionistas do salão de barbeiro imaginam
que todas essas variações passam despercebidas ao resto da humanidade? Saberão
eles que o evolucionismo, levado às últimas conseqüências, incide não
somente sobre as variações de vestidos e penteados de suas esposas, mas também
traz uma suspeita sobre a existência delas. Saberão eles que nunca, duas
noites seguidas, se deitam ao lado da mesma mulher, como dizia Heráclito, ou, o
que ainda é mais inquietante, nunca elas se deitam duas noites ao lado do mesmo
homem? Saberá o evolucionista de rua que, a rigor, se quiser ser coerente,
deverá deixar sua religião, se é católico, e abordar qualquer outra mais
vaporosa? E Deus? É a origem da vida? Nesse ponto bem sei que eles dizem tranqüilamente
que os seres vivos surgiram por evolução. Pronto, que mais é preciso dizer?
Mas em que consiste esse processo? Suponhamos a pergunta formulada. A resposta
será imediata: o negócio passou-se devagarzinho, devagarzinho,
imperceptivelmente, de pai para filho. Com o tempo, o que era terra úmida,
virou minhoca. Ou então foi no fundo do mar que aconteceu o primeiro surgimento
da vida. Estava eu neste ponto quando uma lembrança obsessiva começou a
perseguir-me. Quem foi a pessoa que ainda ontem me dizia quase aos gritos: sou
evolucionista! sou evolucionista! o invisível locutor escondia-se, talvez pela
astúcia da memória que queria poupar-me o dissabor de mais uma controvérsia
nesta idade. Idade. Ah! já sei. Foi o professor Alceu Amoroso Lima no seu livro
Memórias Improvisadas, recentemente publicado. Na página 183 diz o
seguinte: «A importância do catecismo holandês, tão mal recebido pelos
conservadores, reside nas novas perspectivas que abre. Quaisquer que sejam as
restrições ou condenações que lhe sejam impostas, continuarei a achá-lo
digno de admiração e de estudo. O catecismo tradicional era baseado no ponto
final. O holandês é baseado muitas vezes num ponto de interrogação. (sic) Há
uma série de coisas que ele deixa em aberto, fora do que é tido como dogmático.
Mas o que é o dogma? É apenas uma verdade que está para lá de nossa
compreensão puramente racional. Ninguém pode discutir o Mistério da Santíssima
Trindade, porque ninguém sabe o que é, está além de nossa compreensão. Então
é dogma». E depois dessa algaravia que está além de minha compreensão,
sem ser dogma, o Professor Alceu aventura-se a falar na sua evolução: «A
minha evolução se processou através da passagem do evolucionismo
espiritualista tipo bergsoniano à aceitação das bases fixistas
antievolucionistas. Mais tarde, por influência da leitura da obra de Teilhard
de Chardin, deu-se a minha volta ao evolucionismo mas já não de tipo
naturalista nem de tipo espiritualista vago, mas de tipo teocêntrico».
O professor Amoroso Lima não
explica que evolucionismo é esse, e tudo me leva a crer, pela leviandade com
que apregoa sua nova religião, não mais católica, sem talvez se aperceber
disso, que também como o barbeiro, o professor Alceu Amoroso Lima ignora todas
as implicações de seu evolucionismo. Saberá ele que já não pode crer na
origem do homem a partir de Adão? Saberá ele que não pode admitir para o
homem o que os teólogos chamam geração unívoca, já que cada alma humana é
criada por Deus e não pelos pais? Saberá o professor Alceu que a origem da
vida pelo evolucionismo biológico implica problemas de improbabilidades
expressas por números tão fantásticos que um Borel e um Boltzman não
hesitaram em usar os termos de improbabilidades extracósmicas? Saberá o doutor
Alceu que a obra científica de Teilhard de Chardin é de quinta ou sexta classe
e não aparece em nenhum tratado sério de Antropologia, a não ser no grupo
organizado para explorar editorialmente a obra do jesuíta que morreu em
desobediência, já que deixou para uma senhorita a obra que a Companhia
interditava? Saberá o professor Alceu o que é a lei de Clausius? Lembrar-se-á
que Pio XII, numa alocução, recomendava a difusão do conceito de entropia que
mostra a evolução do Universo físico num sentido oposto ao dos evolucionistas
que pensam na ortogênese? Imagina o doutor Alceu que poderá manter
razoavelmente a sua convicção na imortalidade da alma dentro da salada filosófica
e teológica do fantasioso jesuíta? Esquece o doutor Alceu que Teilhard foi
condecorado como pioneiro do diálogo com os comunistas pelo infortunado Roger
Garaudy? Conhecerá o doutor Alceu o princípio metafísico: «nada passa de
potência ao ato se não por algo que esteja em ato» que se opõe ao
evolucionismo?
Volto à minha convicção. Se o doutor Alceu ainda tem fé, será a do carvoeiro; e seu evolucionismo não é muito melhor que o do meu barbeiro.
(1974)