Livrai-nos Deus de nossos inimigos
Gustavo Corção
Um
leitor amigo telefonou-me hoje com palavras de compreensão e encorajamento. Graças
a Deus não são poucos os telefonemas desta espécie. Mas hoje, creio que pela
primeira vez senti a necessidade de assinalar a presença de uma posição prévia
que freqüentemente marca essas manifestações sobre os conflitos em questão.
Sim, hoje, numa espécie de retrospecção multiplicada, como se tivesse em mim
acionado às avessas um computador, observo uma constante nessas comunicações
de meus leitores amigos e correligionários. Muitos se queixam do público
dilaceramento da Igreja, dos debates entre irmãos da mesma Fé que, no calor da
controvérsia, podem chegar a ferir a Caridade e apresentar a triste figura da
Igreja ferida em sua unidade. Não, caro leitor amigo e correligionário, os
artigos de luta que venho mantendo em público, abertamente, sem nenhum disfarce
e sem nenhuma precaução especial no arredondamento das frases, não tem por
objeto as divergências dos Irmãos na Fé e sim as injúrias feitas à Igreja
pelos seus INIMIGOS. Não sou eu quem pretende sondar o foro íntimo para dizer
quem pertence à Igreja e quem está fora dela como inimigo a destruí-la; são
eles mesmos que fazem questão de assim se caracterizarem, sem nenhum equívoco
e de quase nos forçar a dar-lhes crédito. Escrevo sobre o que escrevem e
falam, ou o que deles alardeiam os seus vastos meios de comunicação, e não
hesito um segundo em dizer que aceito o combate e que me considero INIMIGO e não
apenas um irmão na Fé, com amenas divergências.
Bem
quisera, bem quisera freqüentemente entreter-me aqui da grandeza e da beleza
das coisas de Deus; ou até
entreter-me em discussões vivas, mas realmente amistosas, sobre reais e
dolorosas divergências que me separa de
alguns irmãos na Fé. Preferiria o debate elevado e sempre inspirado pela santa
Caridade, que tem como primeira exigência o amor da verdade. Muitas vezes me
entretenho com amigos sobre todos os assuntos que tocam a sagrada doutrina, e não
tenho hoje mais feliz passatempo. Mas a sinistra realidade é a do combate público,
escandaloso, que o inimigo faz à Igreja, e que, portanto, nos impõe.
Volvo
quase um século, para lembrar a primeira lição de catecismo recebida de minha
mãe. Creia-me o leitor ou não, mas o fato é que realmente me lembro.
Suspendendo a esferográfica um instante, revi esse momento que peço a Deus
rever na hora de minha morte: eu pequenino, nos joelhos de minha mãe, aprendia
o Pelo Sinal. Segurava-me ela a mão e, com meu pequenino polegar, fazia o sinal
iniciador da vida católica, repetindo as palavras: PELO SINAL DA SANTA CRUZ,
LIVRAI-NOS DEUS NOSSO SENHOR, DE NOSSOS INIMIGOS, EM NOME DO PAI, DO FILHO, E
DOS ESPÍRITO SANTO.
Hoje,
depois de um século de empulhamentos e do triunfal aggiornamento
trazido por uma apoteose de equívocos, querem nos inculcar a amolecida
idéia de um cristianismo sem combate, sem inimigos e, por via de conseqüência,
sem necessidade do Sinal da Cruz. Ouso dizer que a paz mundial, a paz terrestre,
a paz feita de bem-estar e do comodismo, etc...constitui uma das principais
preocupações do Demônio. Muito melhor do que nós, ele sabe que a obsessão
desse cuidado nos leva ao abandono de qualquer ideal de Bem e de Verdade, e
diverte-se em saber também que esse é o caminho da mais espantosa explosão de
inimizades que o mundo conhecerá. Por mim, confesso que me apavoro, quando
sinto o horror que esta simples palavra provoca nesta atualidade costurada de
ecumenismos, cursilhos, diálogos e demais retalhos da fantasia dopada. Uma vez,
conversando com um general, usei inadvertidamente este vocábulo: “os nossos
INIMIGOS”, e ouvi esta afetuosa observação: Professor, eu prefiro o
termo adversário...Calei-me aterrado. Se os padres e os militares não sabem
mais o que é o “inimigo”, quem o saberá? Porque, na verdade, as duas
instituições que devem ter a viva noção desta entidade, são realmente a
Igreja e o Exército. Aqui no Brasil, as desavenças acaso ocorridas entre
essas duas instituições se explicam umas vezes pelo fato de não serem “da
Igreja” aqueles que em nome dela pretendem falar, outras vezes pelo fato de não
saberem, os homens da Igreja, que o Exército, de 64 até hoje luta a seu lado
contra o inimigo comum.
Imagino
que nesta altura meu leitor esteja a revolver as idéias que aprendeu sobre a
Caridade, Evangelho, Perdão e outras grandes noções que auriu no regaço da
Igreja. Sendo estudioso, lembra-se que o Concílio de Trento trouxe esta definição
lapidar: A Igreja Militante é aquela parte de seus membros (ainda na Terra) que
luta contra três cruéis Inimigos: o Diabo, o Mundo e a Carne.
Mas
meu leitor também se lembrará de uma palavra de Cristo: Mas eu vos digo
amareis vossos inimigos... “Meu Deus, como conciliar tantas idéias
aparentemente opostas?! Como poderei amar se devo combater? Respondeu dizendo:
combatendo! Porque esta é a melhor forma de Caridade a que ele tem direito. Por
incrível que pareça são os pacifistas que pecam contra a Caridade quando
querem que todos se unam e se misturem na mesma indiferença em relação à
Verdade e ao Bem. Sim, não há mais odioso pecado contra a Caridade do que a amável
condescendência com que permitimos e colaboramos com a permanência no erro e
no mal. Não fazer questão de incomodá-lo, de combatê-lo, de tirá-lo da sua
tranqüilidade no erro e no mal, é fazer uma das obras prediletas do Demônio.
O Globo, 25-7-74