LIBERAIS E CONSERVADORES
Gustavo
Corção
Quais
são realmente as mentalidades que se defrontam na Igreja de nossos dias, e mais
especialmente no Sínodo? Já vimos que as denominações usadas no noticiário
não nos parecem adequadas. Que denominações proporíamos nós em lugar
daquelas?
Parece-nos
mais verdadeira esta outra divisão:
De
um lado estão os católicos sem adjetivos, ou então os católicos-católicos
que, mal ou bem, apresentam os seguintes traços: eles crêem na Igreja, e crêem
que a Igreja, no patrimônio de sua sabedoria e na riqueza de sua vida interior
e de seus ensinamentos, dispõe de mais recursos para ensinar e conduzir o mundo
do que toda a cultura da humanidade dispõe para conduzir-se a si mesma e para
conduzir a Igreja. Sem deixar de reconhecer e de admirar os esforços dos
homens, os católicos-católicos sabem que a cultura acumulada e prestigiada
pela ida à Lua não tem unidade, nem tem profundidade para resolver os mais
humanos e portanto os mais graves problemas do homem. O mundo, em seus
registros, não sabe como é feito o homem. Possuirá mil informações
preciosas a respeito das estruturas exteriores, mas não sabe de ciência certa
o que convém ao homem, na vida de família, no convívio político e
principalmente não sabe o que mais convém à alma humana. A Igreja sabe como o
homem é, e sabe ainda mais o que Deus quer do homem.
Com
esta convicção, e com esta certeza de fé, os católicos-católicos se
habituaram a procurar na Igreja de todos os tempos, no depósito de sabedoria
acumulada pelos apóstolos, pelos santos Padres, pelos doutores e pontífices e
por todos os santos, as respostas às mais altas indagações sobre os problemas
humanos. Por mais forte razão, o católico-católico, colocado em situação de
influir e de contribuir para os negócios do Reino de Deus procurará na própria
Casa de Deus, nos próprios registros da Igreja, e sempre à luz da Fé, as soluções
para todas as dificuldades. Ninguém melhor do que a Igreja poderá conhecer as
delicadezas dos problemas eclesiais, e nenhuma ciência do mundo poderá trazer
mais do que uma subalterna ciência exterior e menor, que só será proveitosa
na medida em que puder ser assimilada e norteada pelos critérios espirituais.
O
católico-católico sabe que a Igreja deve estar atenta ao mundo, mas não como
quem está atento ao mestre, e sim como o mestre que deve às vezes aprender com
o aluno, para melhor conhecer suas deficiências e para melhor ensinar, ou como
o médico que ausculta, não para ser curado pelo doente, mas às vezes ser por
ele informado e para curá-lo.
O
católico-católico que estivesse sentado no Sínodo prestaria ouvidos ao clamor
de um mundo enfermo, não para tirar deste clamor a ciência e o remédio. E
para os grandes problemas da Igreja, só à Igreja pedirá critérios e normas.
E em todos os rumores que lhe viessem do mundo saberia sempre vigiar, bem
sabendo que haverá sempre no mundo uma corrente de ira e de inimizade que quer
a destruição da Igreja.
De
outro lado estão os avançados, os modernistas, os progressistas ou liberais,
que crêem mais no mundo do que na Igreja, e que, para o suposto bem de uma nova
Igreja que julgam ainda estimar, preferem não ouvir a velha antes de ouvir os
jornalistas, os economistas, e demais estudiosos da casca do mundo. Acreditam
mais na Ciência, na História, no Progresso, no Mundo, do que na Igreja fundada
por Jesus Cristo, vivificada por seu Espírito. Daí a espantosa facilidade com
que desdenham a obra de um Pio X, recentemente canonizado, e precisamente
canonizado como Papa exemplar.
O progressista, o avançado, o historicista, o liberal, acredita mais em Karl Marx do que em Santo Tomás, e vê valores mais apetecíveis em um Guevara do que em um Santo Cura d’Ars, porque toda a sua confiança está sempre posta no lado do mundo, e toda a sua desconfiança está sempre dirigida para este espantalho da história que é a Igreja de Cristo. Queixam-se dela com medidas e critérios pedidos ao mundo; e querem até salvá-la dela mesma, querem servi-la contra o que ela sempre quis, e para isto nada lhes convém mais do que os critérios da História, do Progresso, da Ciência e da Técnica. A convicção central desse personagem é a de que o homem está se saindo muito bem de todas as empresas, inclusive a de se salvar, enquanto a Igreja não fez outra coisa senão tropeçar nas próprias vestes e desacertar. Debalde lhe dirá o católico que a Igreja tem sua vitória no céu, e que Jesus Cristo Nosso Senhor deixou bem claramente dito que Seu Reino não é deste mundo. Debalde lhe dirá o católico que o mundo está condenado, e que a Igreja vive e sobrevive para colher os sobreviventes do naufrágio final.
Jamais
se entenderão esses dois homens, a não ser que o católico apostate ou que o
progressista ou liberal se converta. E a obra comum que apresentarem será tanto
pior quanto melhor imaginarem que é.
Dois
católicos podem divergir de mil modos em questões que se referem às coisas da
Igreja, podendo ainda essa divergência ser aproveitada em benefício das almas.
O entendimento torna-se impossível e inaproveitável o desentendimento quando o
católico-católico percebe que esperam dele a renúncia de seu critério
central, que é o próprio mistério da Igreja. Temos a firme convicção de que
só haverá lucro real para a Igreja se em tais eventualidades, os católicos
souberem repelir os critérios progressistas, cientificistas, historicistas,
seculares, com a mesma energia que Jesus repeliu a secularização esboçada por
Pedro: "retro Satana!"
Realmente o que está em choque na Igreja de nossos dias é o lado católico, que tira da Igreja todos os seus critérios, e o lado progressista ou liberal, que acredita mais no Século do que na Revelação. Ainda há homens na Igreja que crêem na Igreja, e crêem na absoluta superioridade da Igreja sobre o mundo que precisa dela para salvar-se; mas cremos que já são mais numerosos os homens que acreditam na absoluta superioridade do Século, e que, na melhor das hipóteses, ainda desejam recuperar a vetusta organização filantrópica, se essa veneranda recalcitrante se corrigir de suas antigas intransigências e resolver aceitar a mãozinha estendida da mundanização.
(Publicado
em O GLOBO de 25/10/69