ENCONTROS
COM OSWALD DE ANDRADE
Gustavo
Corção
Foi
há dois anos, creio eu, que tive um primeiro rápido encontro na porta de uma
livraria com Oswald de Andrade, e a primeira impressão que logo me assaltou foi
a de estar começando uma amizade, um jogo, com um menino guloso, truculento,
direito e bom. Mal me lembram as palavras que dissemos e os assuntos que
abordamos. Ele mesmo procurara essa aproximação. Queria saber como eu era;
queria tirar a limpo o conflito, o desajuste ou a contradição que julgava
existir entre meus livros e meu catolicismo. Ou melhor, e com palavras suas,
desejava verificar se eu possuía um “catolicismo de Botafogo” ou algum
outro de espécie mais admissível. E verrumava-me com aqueles ferozes olhos
azuis que dias depois, em conversa mais íntima, deixaram escapar reflexos de
ternura.
Ficamos
amigos, amigos de uma amizade absurda e incompatível que resistiu a todos
choques de idéias e que, apesar do abalo produzido pelo livro “horrivelmente
dogmático” que publiquei um ano mais tarde, durou até o seu último dia.
Na
conversa que tivemos uma noite em minha casa, ele me ouvia com a atenção de um
gato que acompanha uma presa, e de vez em quando, sem despegar de mim os olhos,
fazia um gesto para a Antonieta Alkmin, que assistia silenciosa ao primeiro
“round” de nossa amizade:
—
Olha a cara dele, Antonieta!
Não
sei o que via ou o que procurava na minha cara. Sei que me embaraçava por não
conseguir corresponder à generosidade de seu interesse por meu mundo. Tudo nos
separava. Seus autores não eram os meus, suas admirações estavam longe de ser
as minhas, e, além disso, para acréscimo de dificuldade, quase nada conhecia
eu de sua história e de sua obra. Não acreditava muito na sua antropofagia, e
embora pouco mais moço, nem de longe participara do famoso movimento modernista
que ainda hoje me parece um jovial equívoco de uma irreverente geração.
Naquele tempo eu andava pelos sertões deste desconhecido Brasil a fazer
coordenadas astronômicas, e só muito raramente percebia que a cultura andava
em pânico, e que os ídolos acadêmicos eram derrubados por uma dúzia de
alegres iconoclastas.
No
caso foi bom. Foi bom que eu não pudesse corresponder ao seu interesse, que eu
não pudesse em sã consciência elogiar sua obra, que eu mal conhecesse seu
passado e seus livros, porque essa embaraçosa situação me permitiu descobrir
a largueza de alma de meu novo amigo, o velho Oswald de Andrade. Não é fácil
para um escritor curtido no ofício, para um autor que sente passar seu efêmero
momento, que vê transformar-se em sedimentos de saudade o que um dia fora uma
vulcânica esperança, interessar-se por um novo autor que aparece tarde e segue
itinerários tão diferentes. Oswald de Andrade suportou magnificamente essa
prova, e posso afiançar que não lhe vi um só sinal de ressentimento em cada
ocasião que não pude evitar a evidência do desencontro de nossas órbitas. O
incômodo foi para mim remunerador, pois não há mais grata experiência do que
a descoberta de uma generosidade. E julgo estar certo se tiro dessa grandeza do
homem a explicação de sua filosofia antropofágica, que mais seria uma
doutrina de bom apetite, de larga abertura para o mundo e para os outros do que
cruel teoria de entre-devoração social.
O
século dezenove foi marcado por uma concepção da sociabilidade que postula a
antinomia entre o indivíduo e a sociedade e que fundamenta o convívio na luta.
O essencial, o formal da convivência humana, de Rousseau a Marx, do
individualismo liberal ao totalitarismo, não é a amizade cívica de Aristóteles
e dos escolásticos; é antes o duelo de morte, a luta pela vida, é em suma o
egoísmo, a inimizade, cruel em Nietzche, esportiva em Malthus e Darwin. O homem
é o animal de rapina de Spengler, ou o mais apto sobrevivente de um torneio de
símios. E para outros, na extrema esquerda, a parusia de uma sociedade perfeita
tem de ser dialeticamente atingida pela luta de classes. Nesse clima cultural,
que nas crises agudas produzirá o nazismo e no estado crônico constitui a
disciplinação meramente extrínseca do egoísmo burguês, a antropofagia de
Oswald de Andrade nada teria de original e muito menos de moderno, e sobretudo
nada teria de elevado, embora, para a maioria das pessoas que vez por outra
correm os olhos pelo mundo, a descoberta da ferocidade humana pareça constituir
um vértice de suprema sabedoria. Penso, porém, que a filosofia de Oswald de
Andrade era mais uma avidez que uma crueldade.
Estou com Antonio Cândido, no seu Prefácio Inútil a Um Homem sem Profissão (Oswald de Andrade, Ed. José Olímpio), em pensar que a antropofagia de Oswald de Andrade tem raízes numa cosmovisão, e, diria eu, numa espécie de dilatação do estômago espiritual.
Bom
apetite, excelente boca, ele via o mundo como um colossal e inextinguível
alimento, e atirava-se na vida, até os sessenta anos, como um faminto que se
precipita sobre as iguarias de um banquete. Por isso, enquanto eu, enfastiado,
afastava de mim o requentado modernismo, e apenas provara seus livros, Oswald de
Andrade engolira os meus, só deixando na beira do prato os espinhos mais duros
do dogma.
Vi-o
pela última vez no Hospital das Clínicas de São Paulo. Depois de uma
emocionante aventura, em que me parecida estar atravessando a cortina de ferro
com passaportes falsos, consegui entrar na fortaleza das clínicas paulistas e
graças à intervenção de um moço que... mas isto é outra história —
cheguei ao quarto letra tal, número tanto, onde o velho modernista se refazia
de recente e difícil operação na cabeça.
Magro,
envelhecido, estava quase irreconhecível. O turbante manchado de sangue, que
lhe envolvia a cabeça, tapando o olho direito, dava ao esquerdo uma redobrada
ferocidade de pirata da Ilha do Tesouro. Quando entrei, a admirável Antonieta
Alkmin atava-lhe ao pescoço um enorme guardanapo, e apressava-se a servir um
prato de canjica cheio até a beira, que ele reclamava com rugidos de impaciência.
Quem
é você? Gritou vendo-me entrar. Pregou em mim o olho disponível sem conseguir
decifrar minha identidade na penumbra do quarto. Antonieta disse-lhe quem era, e
logo o olho duro e metálico revestiu-se de uma doçura de hortênsia. Abraçamo-nos.
Entre duas colheradas sorvidas vorazmente perguntava-me se estava escrevendo
outro livro e interessava-se por meus projetos. Devorava a canjica, e
devorava-me a mim, com a mesma grande fome, com a mesma grande boca aberta para
a vida e para o mundo. Antonieta, a excelente e compassiva Antonieta, fazia-me
agora por trás dele, sinais misteriosos. Apontava com insistência para a própria
blusa e depois para o companheiro coroado de sangue. Entendi afinal que devia
olhar para o peito de Oswald, e descobri então meia dúzia de santinhos
pregados no seu pijama. Ali estavam as medalhas de nosso bravo corsário, as
condecorações de suas últimas façanhas. Notando uma delas, uma humilde
medalhinha milagrosa de alumínio, pedi à Virgem Santíssima que tomasse conta
daquele filho voraz e que lhe ensinasse aquela passagem de seu cântico — esurientes
implevit bonis [1] — que é um compêndio de
filosofia antropofágica do céu.
(O Globo, em 4 de novembro de 1971.)
[1] [N. da P.] "Encheu de bens os famintos" (Lc 1, 53)