PADRE
ANTÔNIO
Gustavo
Corção
Numa
cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste
tão
imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno,
mil
ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer
contas intermináveis, e um padre coadjutor, na
sacristia,
a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.
Já
traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas
naquele
momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima.
Está ali. Não é nada. Não sente forças
para
fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente
encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais
não
poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma
só
porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém
mais
aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou
quando
o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha.
Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o
vigário, na hora do jantar,
reduz-se
a monossílabos.
Padre
Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam:
a
água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos
moleques
na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia
companhia,
que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça.
Por
que esta devastação?
O
vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo,
com
a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não
pensa.
Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num
mutismo
quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu
sofrimento
fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e
quem
paga é padre Antônio.
Um
dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e
teve
de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é
muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja
do
João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E
é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na
janela
e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente
vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso
Senhor. Mas essa história da
batina
doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he
tivessem
arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa
por
baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que deve
celebrar
a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar
uma
só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas
antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria
as
rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para
enfeitar
o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo
aparecia para assistir ao Sacrifício de
nosso
Salvador. Nem valia a pena bater a campainha.
As
novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o
importante é aparecerem as calças para todo
o
mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.
Está
na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio
sente
a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem
falar.
Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do
Frederico,
mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada.
Poderá
perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a
d.
Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com
quem
possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida
tristeza de vestir por cima das calças uma alva
sem
rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina
preta,
a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho
para
viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem
possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo em
nossa
Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre,
a
quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não
pode
ser! As portas do inferno não prevalecerão!»
Padre
Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a
noite
já escondia. O mundo começava além daquela serra... O
mundo!
Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso!
Abriu então as duas mãos grandes e
magras
que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de
consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim
ao
mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus.
Mãos
grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas.
Ao
menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.
Num
desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos
frementes,
tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé.
Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja?
As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam
pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para
fazer do que para pensar... O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos?
Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem
foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o
costume de falar com o padre Antônio.
Juntam-se
as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma
camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus
meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me,
Domine Deus meus...».
E
então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de
que não estava só.
(15-2-69)
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