O MALOGRO DE UM JOVEM QUÍMICO
Gustavo
Corção
Ia
eu contar-lhes o resto da história da Astronomia, quando alguém trouxe à
baila a estranha resistência vital ou os sete fôlegos dos gatos, e, desviado
por essa consideração, fui parar na rua do Matoso, 107, em 1915 ou 1916.
Trocara as estrelas pelos átomos, e a minha paixão, uma paixão espanhola,
debruçou-se sobre a química.
No
princípio não era bom aluno na matéria por me faltar o livro... e o
quantitativo, como hoje se diz no Ministério da Educação. Numa tarde que
suponho dourada e outonal, para colorir a lembrança, abri-me com um colega mais
velho que já estava no terceiro ano, livre das retortas. Ele teve um gesto
largo e magnânimo: “Eu te empresto o meu...” (Esqueci-me o nome do autor
que naquele tempo era clássico). No dia seguinte o colega, rapaz meticuloso,
que tinha um defeito na perna e falava fanhoso, trouxe-me os dois volumes: mas
daí por diante, sempre que cruzava comigo, fazia um gesto paternal, feliz, e
saudava:
—
Como vais, químico?
A
paixão, como costuma aparecer, veio de repente. Até certo ponto eu estudava
com aquela disposição morna de todo aluno meio-termo que quer passar nos
exames. De repente entrevi uma caverna mais espaçosa e mais maravilhosa que a
de Ali Babá, mas não me lembro qual foi o elemento, ou a reação que
representou o papel fulminante. O caso é que de certo dia em diante eu sonhava
com tubos de ensaio e acordava fazendo projetos de ter um laboratório em casa.
Aos poucos fui comprando balões, tubos, lamparinas e as preciosas substâncias
que deveriam depois, diante de meus olhos fascinados, dar dimensões de
realidade ao que o livro abstratamente prometida. Grande coisa! Grande coisa
esse exercício que consiste em debruçarmo-nos sobre o que as coisas são, e em
decifrarmos os seus segredos!
Mas
deixemos para outra pauta as reflexões filosóficas e ouçamos o que a memória
nos diz em sua linguagem modesta.
Montei
um pequeno laboratório no quarto dos fundos do Colégio, e comecei a ser objeto
de intensa curiosidade. Na hora do recreio todos os alunos vinham ver os
precipitados coloridos dos sais de cobalto e de cromo, ou vinham assistir,
estupefatos, à decomposição da água por um processo eletrolítico que eu
improvisara. Ganhei fama. Uma fama de duzentos metros de raio. Mas acontece que
nesse círculo exíguo estava incluída a casa de duas mocinhas portuguesas,
muito belas, que possuíam um gato de estimação.
Precisava,
para maior clareza, abrir um parêntese de cem páginas a fim de explicar aos moços
de hoje como eram as moças de ontem. Na falta de tamanho espaço resumo minha
demonstração: eram rigorosamente iguais, e fantasticamente diferentes. Como as
igualdades, em regra geral, despertam menor interesse, vamos às diferenças. E
a principal residia no fato simples de terem janelas as casas de antigamente.
Digo janelas abertas para a rua pouco movimentada e por isso mesmo muito mais
divertida, e também abertas para a penumbra das misteriosas salas de visitas
como molduras de quadros vivos de Renoirs que se ignoravam.
Tudo
isto para dizer que as minhas lindas portuguesas, ora juntas, ora alternadas,
costumavam surgir no vão da janela, ao entardecer, e ali ficavam, muito tranqüilas,
às vezes bordando algum paninho de pretexto, outras vezes apenas a iluminar a
rua do bairro tranqüilo, onde as meninas de tranças cantavam cantigas de roda.
Os
namoros, freqüentemente, começavam por uma contemplação com a nota
predominante da imobilidade. E os meros admiradores, como era o meu caso,
passavam pelas janelas floridas tirando o chapéu, boa tarde! boa tarde!, e,
sentindo ora mais densas, ora mais tênues, as linhas de força da beleza
feminina enquadrada na espera.
Sim,
na espera. Este vocábulo explica tudo das moças daquele tempo. E nós passávamos
e atravessávamos a zona, a nuvem, a atmosfera de expectação.
Quantas
vezes passei eu debaixo daquela sacada alimentando o sonho de ver a casa
incendiar-se e eu ter de saltar o gradil para salvar em meus braços vigorosos a
moça desmaiada! Terão os moços de hoje esse sonho predominante? Terão ainda
as moças a disposição de desmaiar nos braços do salvador? Receio que não.
Mas a verdade manda dizer que nunca tive ocasião de salvar nenhuma donzela
aprisionada ou ameaçada de incêndio.
A
pequena oportunidade que tive de brilhar nessa época, falhou de um modo lamentável,
por causa da supracitada resistência dos gatos. Foi assim: o gato de estimação
das duas formosuras adoecera e agonizava de um modo espalhafatoso e incômodo. A
vizinhança não conseguia dormir. Quando chegou aos ouvidos das moças minha
fama de químico, faltando-lhes coragem de matar o bichano a tiro de revólver,
mandaram pedir a minha mãe um veneno fulminante. E eu, felicíssimo, elaborei
uma mistura terrível de cianeto de mercúrio e não sei mais o quê, que
deveria ser mais mortal do que a acqua
tofana da Rinacita.
Enchi
um vidrinho, desenhei no rótulo a caveira com duas tíbias cruzadas, e escrevi
num papel as instruções para a eutanásia do gato.
O resultado foi medonho: o gato não morreu e até parece que sentiu melhoras. Uivou ainda uns quinze dias desmoralizando assim a Ciência diante da Formosura. Sendo difícil na juventude manter a ciência em estado puro, desinteressada dos olhos negros e pestanudos das morenas bonitas, senti-me frustrado. Pode ser que me engane, mas parece-me que foi aquele gato que me desviou da vocação química e me devolveu à astronomia.
(11/05/1968, republicado em "A Tempo e Contratempo", Editora Permanência)