REMINISCÊNCIAS
ASTRONÔMICAS
Gustavo Corção
Foi
no terceiro ano da Escola que voltei à astronomia. Em 1918? Creio que sim. Mas
não era à poética astronomia dos anéis de Saturno ou da nebulosa espiral de
Andrômeda que eu voltava, e sim à geometria e abstrata, que toma as estrelas
como pontos de referência para determinar as coordenadas geográficas. O símbolo
se impõe: quando queremos saber com firmeza onde pisamos, devemos erguer os
olhos para o céu.
Em
1918, antes da famosa gripe espanhola, que foi uma peste medieval temporã,
talvez a última, entreguei-me todo aos ângulos horários, às ascensões retas
e ao jogo do xadrez. Há estações da vida mais chuvosas e outras mais secas.
Naquele tempo minha paixão foi a das abstrações geométricas, mas muitas
vezes, à noite, fechado no quarto, debruçava-me a arranhar o papel no baldado
esforço de dizer em verso as coisas indizíveis; e também muitas vezes
achei-me a chorar sem saber porquê.
Depois
do jantar, com uma perseverança mutuamente reforçada, meu amigo Lacombe e eu
subíamos o morro de Santo Antônio, onde estava instalado o observatório da
escola, e lá ficávamos, não a ouvir estrelas, mas a medir graus, minutos e
segundos.
O
leitor talvez não conheça a espécie de exultação que vem do exercício da
exatidão. Forma humilde da verdade, o décimo segundo de arco tem um fascínio
esportivo, poético e moral. Medir é um modo de possuir, além de ser um modo
de conhecer; é também um modo de se comprometer.
Às
vezes nossas observações eram interrompidas pelo bom Professor Orozimbo,
conservador do observatório, que me dava a impressão de estar interessado em
todas as coisas, com exceção da astronomia. Para a solidão de sua ilha no
alto de um monte, nós éramos o mundo, ou seríamos o que Sexta-Feira foi para
Robinson Crusoé, com a diferença da regularidade com que todas as noites,
pontualmente, naufragávamos no seu litoral.
O
Professor Orozimbo gostava de discorrer sobre os mais variados assuntos. Uma
noite, quando apontei a luneta para a primeira estrela de um par Sterneck, o
Professor Orozimbo explicava ao Lacombe a incontestável superioridade dos
cobertores argelianos; e quando virei cento e oitenta graus em busca da segunda
estrela, descrevia ele minuciosamente a maneira de dar o ponto na goiabada
campista.
Tive
alunos, e creio que dois deles, ainda vivos, se lembrarão do Morro de Santo Antônio.
Bons tempos! Largos tempos! Mais tarde sonhei entrar para o Observatório
Nacional que para mim era a catedral da astronomia. Tive então a idéia de
valer-me de um trabalho original com que me apresentaria ao Dr. Morize, sem
necessidade do pistolão, que aliás eu não tinha.
Tratava-se
de um método de determinação de latitude por alturas iguais, sem leitura do círculo
meridiano, sendo a diferença de altura das duas estrelas determinada pela
diferença de ângulo horário. Esse trabalho figurou na tese de concurso do
Professor Alírio de Matos, mas não deu o resultado que eu esperava na
tentativa de entrar no Observatório. Apresentei-me sozinho, com o embaraço que
naquele tempo tinham os moços de vinte e dois anos. Tremendo, subi as escadas
do edifício, e parei vacilante na porta do diretor. Bati.
-
Entre!
Entrei,
e quando achei minha voz pus-me a tartamudear uma explicação do que pretendia.
Meu sonho era ter um lugar no Observatório, e por isso trazia um trabalho
original, sim, isto é, quero dizer um processo de determinação de latitude
com o teodolito, processo que tinha a vantagem, sim, quero dizer, a
superioridade sobre o Sterneck de dispensar a leitura do círculo vertical...
Abri
o rolo e deixei cair no chão metade dos papéis, e, envergonhado como um réu,
ouvi a sentença glacial que descia do alto do pico Everest. O professor veria
mais tarde, o professor não via vantagem alguma sobre o Sterneck, e finalmente
o professor traçou no ar um gesto, uma espécie de absolvição às avessas –
tudo isto sem perceber que o pobre moço alourado e corado, que tinha diante de
si, tentava em vão transmitir-lhe um segredo de amor. Despediu-o secamente, e o
moço, no meio da escadaria de entrada, vendo que estava só diante do céu e do
jardim, sentou-se no degrau, com o canudo de sua invenção embaixo do braço, e
chorou amargamente.
Não
imagine o leitor, pelo amor de Deus, que eu esteja aqui, meio século depois, a
desforrar-me e a denegrir o professor Morize. Nem me passou pela mente, naquela
manhã, que eu devia ser compreendido pelo professor. Os tempos eram outros. O
professor usava sobrecasaca e o aluno usava o respeito. E isto era bom.
Para
vencer a tensão superficial que separava os dois mundos, era preciso dispor de
uma força maior ou de uma vocação mais invencível. Um Gauss, aos dezoito
anos, em pleno século do superego e da autoridade paterna, conseguiu mudar o
curso de uma Universidade alemã: o Reitor reuniu solenemente toda a congregação
e alunos para comunicar que o jovem Gauss nada mais tinha a aprender ali, mas
muito a ensinar. Mas os Gauss são raros, sobretudo nos trópicos.
Depois
desse malogro, tive de procurar emprego, por serem poucos os alunos, e foi nesse
tempo que meu padrasto conseguiu para mim um lugar de fiscal de lixeiro no serviço
de Limpeza Pública. O serviço era simples: tinha de acordar às quatro da manhã
para assinar ponto em São Cristóvão às cinco. E dali saíamos nós, cinco ou
seis, a fiscalizar o serviço das carroças.
Durante
esses meses conheci o avesso das cidades adormecidas, ou a perspectiva do mundo
vista do lado da lata do lixo. Envergonhava-me um pouco o ofício de vigiar um
pobre ainda mais pobre do que eu, mas admitia sem grande relutância a
necessidade de tal mister. Fiz dois ou três amigos que me contavam histórias
de suas necessidades, e tive o encargo de escrever cartas de amor para um colega
que tinha o amor, mas não sabia como exprimi-lo. Às vezes o acaso, ou melhor,
a carroça do lixo me levava para os lados de São Januário, e eu então via de
longe as cúpulas desejadas do Observatório que desdenhara meu amor.
Hoje,
à distância de meio século, bendigo a sorte que me deu uma juventude de
luminosa e transparente pobreza, e até, lembrando-me agora do episódio, agradeço
a Deus a resistência oferecida pelo bom professor Morize. Um professor é um
professor, e para o razoável equilíbrio do mundo é bom que os moços
encontrem algumas resistências em todos os seus amores.
(30/05/1968, republicado em "A Tempo e Contratempo", Editora Permanência)