A
Revelação do Homem
Gustavo Corção
Não,
caro leitor, não creio
que possamos convenientemente definir
e caracterizar as graves
perturbações do mundo
católico com as expressões
condoídas que você usou
em sua carta, tais como
"lamentáveis divisões", "dolorosas
divergências", "dissenções
e polêmicas entre católicos".
Tentarei expor aqui meu
pensamento com a mesma
objetividade e isenção
de ânimo que sempre
pus nas minhas obras de
engenheiro: receptores de
ondas curtas, amplificadores
de freqüências acústicas,
sistemas eletrônicos de ondas
portadoras etc. etc. Essas
pequenas obras que deixei
esparsas e que me sobreviverão
por algum tempo, como
ainda sobrevivem, em
funcionamento, aparelhos que
construí para a Companhia
Telefônica Brasileira em
1937, são meu obscuro testemunho
de uma docilidade ao
real com que quero viver
e morrer. O título com que
dou aulas de religião aos
que para isto ainda me procuram
é também uma docilidade
ao que aprendi com os
apóstolos e seus descendentes.
Melhor coisa não possuo
senão esta capacidade
de bem identificar o evangelho
deixado pelos evangelistas
e difundido por Paulo.
Não
tinham grau de doutor em
teologia os gálatas
humildes a quem o apóstolo
Paulo
escrevia: "Mas ainda que nós mesmos ou
até um anjo do céu vos anuncie
um outro evangelho (...), anátema
seja. Já vos disse antes e agora repito: se
alguém pregar outro evangelho,
diferente do que recebestes, seja anátema."
(Gal. 1, 8-9.)
Nesta
singela e severa passagem
se condensa toda a
praticabilidade do cristianismo. Se os mais humildes
fiéis não fossem capazes
desse discernimento inicial
e fundamental, ou se outro
evangelho se pudesse inculcar
como o mesmo já anunciado,
vão teria sido o Sangue
derramado na Cruz, vãos
os ensinamentos de Jesus,
vão o testemunho dos mártires,
dos doutores, dos heróis
da santidade: O cristianismo
seria uma tertúlia de
intelectuais e, por conseguinte, não seria o cristianismo.
Baseado
neste diploma
universal, que tem o sinete
dos primeiros princípios
e o escudo do senso comum,
ouso dizer uma coisa
ensurdecedoramente visível
e ofuscantemente audível:
não há apenas divisões dentro
da Igreja (se com esses
termos queremos designar
os escândalos provocados
por religiosos, padres e bispos),
não há dissensões e polêmicas.
O que há, a entrar
pelos olhos adentro, é outra
"igreja" a anunciar estridulamente
outro evangelho. Não há
duas alas, a dos conservadores
e a dos progressistas; há
duas coisas distintas: a
Igreja de Cristo, de
Pedro e de Paulo e a outra
Coisa. Posso admirar-me e
entristecer-me pelo fato de
não ouvir o Papa dizer a palavra
liberadora — anátema
seja aos falsificadores, aos
fabricantes de um novo super-protestantismo
feito com os vômitos
do que já envelheceu e
apodreceu; mas não
posso, sem desrespeito e
paranóia, pretender suprir com minha voz o
silêncio do Papa.
Já recebi carta de um inimigo leitor que me chamou de Papa de "Laranjeiras, 540, fundos". Tem certa graça o epigrama, e talvez tenha sido este rasgo o último alento de um espírito em agonia. Não. Não sou Papa. Não me inculco nem como coadjutor do vigário. Não sou nada, absolutamente nada mais do que um pobre gálata que aprendeu uma lição posta ao alcance de todos: se alguém anuncia outra religião, anátema seja. Não estou usurpando autoridade, não estou condenando ninguém, estou apenas dando um testemunho e transmitindo ao amigo leitor, de irmão para irmão, o incentivo de fazer o mesmo. "Sereis minhas testemunhas..." (At 1), disse-nos o próprio Senhor no dia de sua Ascensão. Obedeçamos. E clamemos: o que anda por aí com nomes de progressismos e de aggiornamento não é uma ala avançada ou nova da Igreja. Basta ver como se movem, ouvir o que dizem, atentar aos santos que veneram, para se tornar evidentíssimo (se me permitem tal exagero) o fato de anunciarem outra religião.
Insisto.
Dessa outra religião
que, em vez de ser uma adoração de Deus é, como
muito bem diz John Eppstein,
"The worship of that
will-ó-the-wisp Modern Man",
é impróprio e insuficiente
dizer que é a paixão da
Igreja de Cristo e que devemos
ver esse fenômeno com
otimismo e confiança em Deus
etc. etc. De início quero
registrar a chocante impropriedade
dessa mistura de
confiança em Deus com otimismo.
O termo otimismo
não tem lugar, a não ser em
serviços muito subalternos,
no léxico cristão. É em nome
da divina Esperança que
repilo o otimismo, e que não
posso ser otimista diante
do tal Homem Moderno. Esse
termo foi inventado e posto
em circulação para designar
uma espécie de bobagem
muito humana, humana
demais, e não para substituir
os termos com que há dois mil anos sabemos exprimir
nossa confiança em Deus.
Dizer
que isso que aí está
é a Igreja, com justos e
pecadores, é o mesmo que dizer,
por exemplo, que continuavam
a ser Igreja peregrina
e aflita os verdugos protestantes
que há quatro séculos
e meio, na data festivamente
comemorada pelos novos
protestantes de hoje,
perseguiam o rebanho de Cristo
na Alemanha, na Dinamarca
de Frederico de Holstein,
na Noruega e na Suécia
de Cristiano III, na Suíça
de Calvino etc.
Se
os católicos do século
XVI tivessem tido a
compreensão ecumênica que hoje
ostentam, aquilo que existia
na Alemanha, na Dinamarca
etc. etc., continuaria a
ser Igreja. E então tudo
seria igreja; ou então nada
seria Igreja.
Divisões,
dissenções dentro da
Igreja sempre haverá.
Houve na polêmica de auxiliis
entre jesuítas e dominicanos.
Mais grave divisão
houve no grande cisma, quando
até os santos, como Vicente
Ferrer se enganavam de
obediência. Havia dúvida
sobre a legitimidade deste
ou daquele Papa. Os fiéis
iam à mesma missa, comungavam
no mesmo Corpo de Deus, mas muitos não sabiam se o Papa era Urbano
VI ou Clemente VII. Ninguém,
entretanto, pensava do
papado o que pensam hoje
os democratizantes que admiram
o Cardeal Suhenens ou
seguem o catolicismo holandês.
Hoje a disputa não se
faz em torno da legitimidade
de um Urbano e um Clemente.
Hoje a rivalidade se
estabelece entre Deus e o
tal bizarro ídolo que John Eppstein
no seu provocante e
sensato livro "Has the Catholic
Church Gone Mad?" chama
de "will-ó-the-wisp Modern
Man".
*
Nossa
mesma e eterna Igreja,
nascida do lado do
Cristo, adormecida na dor da
Cruz, guarda e resguarda o
tesouro da Revelação de Deus.
A outra coisa, como se viu no artigo publicado em Grande
Sinal, exibe e vende a
Revelação do Homem que é,
como já disse atrás, o vômito
requentado da Reforma e
do humanismo renascentista.
Mas
não é nessa outra coisa
que reside a paixão da Igreja;
é antes naqueles que, no
seu próprio seio, não se levantam,
nem dão sinais de detestar
a falsificação e o brinquedo
com as coisas santas. Catarina
de Sena ensinava a odiar
o mal com os dentes, e a
Igreja, até poucos anos
atrás, dizia dela, no intróito
da missa: "dilexisti justitiam et odisti iniquitatem"
A
paixão da Igreja está naqueles
que só acordam e só
se levantam para reclamar
contra os clamores dos
que combatem. A paixão da
Igreja não está nos progressistas
que já não pertencem
à Igreja; está nos comodistas
que só se queixam de nossos epítetos e não dos escândalos
do tropel que, aos
borbotões se precipita fora
da Igreja. As religiosas podem
inventar doutrinas fantasiosas,
os padres podem perverter a juventude, os
bispos podem pregar a subversão
— mas o cronista católico
não pode designar esses
fenômenos com estes adjetivos
ou aqueles advérbios. Para os omissos e sonolentos,
sou eu, entre outros, quem faz o escândalo.
(O Globo, 11 de abril de 1974)