A
ARIANO SUASSUNA
Gustavo Corção
Tivemos
quarta-feira
passada
na PERMANÊNCIA [N. da P.: dezembro de 1971], numa
sala
repleta,
que
quiséramos
mais
ampla
e
mais
repleta,
uma
conferência
de
Ariano
Suassuna
sobre
o Romanceiro
Popular
do
Nordeste.
Depois
de uma
sábia
apresentação
de Gladstone
Chaves
de Melo
que
esboçou
um
resumo
da
vida
já
bem
vivida
do
mais
jovem
membro
do
Conselho
Federal
de
Cultura,
e uma
interpretação
de
seu
último
grande
livro,
“A
PEDRA
DO
REINO’
(Ed. José Olimpio, 1971),
Ariano
Suassuna levantou-se, digo
melhor,
desengoçou-se e começou
por
dizer
que
era
canhestro
e
gago,
coisas
que
aliás
logo
se viram:
mas
creio
que
ao
cabo
de
poucos
minutos
todas as
pessoas
presentes
estavam a
sonhar
com
um
mundo
em
que
a
humanidade
inteira,
e
principalmente
os
escritores,
fossem
canhestros
e
gagos
como
Ariano
Suassuna; e creio
também
que
no
mesmo
breve
tempo
Suassuna sentiu
que
já
ganhara o
coração
de
toda
a
PERMANÊNCIA
— e
que
a
nota
principal
daquela
grande
família
que
o ouvia
com
tanta
atenção
e
alegria
é a
amizade,
amizade
começada na
terra
e desabrochada no
céu
—, e
amizade
na
qual
já
se
acha
solidamente inscrito o
rapsodo
que
nos
trouxe
ontem
a
notícia
da
maravilhosa
poesia
popular
que
são
as
flores
e os cardos de
nosso
amado
e sofrido
nordeste.
Ariano
Suassuna, numa
introdução
improvisada e desordenada, falou de
si
mesmo
com
graça
e
humildade,
como
só
sabem
fazer
as
almas
dotadas e sofridas
que
têm o
vivo
sentimento
do
trágico
e do
ridículo
da
vida.
Falou-nos de
sua
composição,
de
sua
heteronomia,
entre
cujos
elementos
predominam o
palhaço
e o
rei
que
todos
somos. E
aqui,
para
responder
ao
susto
de uma boa
senhora
que
me
telefonara espantada de
meu
aviso no
jornal,
onde
anunciava a
conferência
de “um
comunista”,
Ariano
Suassuna explicou
que
era
monarquista e
que
suspeitava
que
metade
da
sala
o fosse
sem
saber,
ou
sem
ousar
confessar.
Acrescentou
seu
horror
ao
marxismo
que
o
bom
povo
do
nordeste
energicamente repeliu,
como
o repeliu
também
o
bom
povo
camponês
da Sibéria. E a
demonstração,
como
se costuma
dizer,
estava na
cara
do
homem
menos
pedante
que
em
toda
minha
longa
vida
já
encontrei.
Nós
sabemos
que
há duas
espécies
da
mesma
hedionda
deformação
do
homem,
manifestada no
pedantismo:
há o pseudo-científico e desidratado
pedantismo
dos
marxistas,
e o floreado
pedantismo
tão
bem
representado
pelo
professor
Cândido
Mendes de Almeida de
que
já
tratamos na
quinta-feira.
Não
logrando a
síntese
essencial
do
cômico
e
rei,
esta
casta
de
retórico
só
consegue
realizar
o
hemisfério
palhaço
de
nossa
mísera
condição.
Suassuna está
nos
antípodas
dessa
raça
de
anões
que
em
vão
se esticam,
ele
é
alto
de
pernas
e de
coração.
Por
essa e outras,
receio
muito
pela
mantença do
regime
(refiro-me à
vetusta
e
quase
centenária
República)
se aparecerem
por
aí
muitos
Suassunas,
por
que
na
verdade
verdadeira somos
todos
nós,
e
não
só
os
incorrigíveis
franceses
que
decapitaram
sua
história,
temos
nostalgia
de
um
reinado.
Lembro-me de
um
bom
jardineiro
português,
talassa, ultramontano,
que
plantou
flores
no
jardim
de
minha
infância
—
flores
que
ainda
perfumam
meus
sonhos
— e
que
explicava desolado à
minha
mãe,
depois
do
assassinato
do
Rei
Dom
Carlos de Portugal,
que
a
República
era
o
começo
do
fim
do
mundo.
E
quando
nós
o cercávamos
para
exigir
dele uma
explicação
mais
clara,
o
bom
súdito
perene
de
Dom
Sebastião e de
Dom
Carlos,
com
gestos
largos
e
simples,
que
devem
ser
o dos
cantores
que
Homero compendiou,
meu
bom
português
respondia
com
olhar
iluminado:
— Ai! os
meninos
não
sabem o
que
é a
gente
ver
o
Rei
passar...
E o
gesto
reticente
era
a
comitiva
de
um
Rei
que
passa
diante
de todas as
lendas
do
mundo.
“Ver
o
Rei
passar”.
Certo
carnaval
antigo,
há
cem
ou
duzentos
anos
dos
mil
que
já
vivi, andava
em
moda
uma
canção
e lembra-me
bem
o
impacto
violento
que
recebi numa
esquina
quando
vi
caído
no
chão
um
papel
com
o
nome
da
canção
em
grossas
letras:
“Que
Rei
sou
eu?”.
Deus
nos
fez
Rei,
Homem-Rei, de todas as
coisas
do
mundo
inanimado,
do
mundo
de
plantas
odoríferas e
animais
que
voam, correm
ou
se arrastam.
Mas
nós,
ai de
nós,
aonde
deixamos esquecida
nossa
coroa?
Quisemos
ser
Rei
do
Rei,
e
aqui
estamos
nos
carnavais
da
vida,
metade-rei metade-palhaço, a indagarmos
aflitos:
“Que
Rei
sou
eu?”.
* * *
Deixemos o
regime
em
suas
bases
e
agora
vamos ao Romanceiro
que
Suassuna
nos
trouxe.
Confesso
que
até
ontem,
talvez
por
ter
nascido no
Rocha,
nesta
metrópole
que
há
muitos
séculos,
no
tempo
em
que
os
animais
não
falavam, foi uma
cidade
maravilhosa,
ou
por
alguma
outra
razão
com
que
não
atino,
nunca
dediquei
em
toda
minha
vida
a
devida
atenção
—
agora
friso
o
termo
devida
— a esta
casta
de
cultura,
de
ascensão
humana,
de
conquista,
que
se esconde,
como
o Romanceiro do
Nordeste,
sob
o
disfarce
da
pequenez
à
espera
de
um
Homero
que
a transforme
em
espanto
dos
milênios.
Não
quero
assustar
a
modéstia
de Suassuna apontando-o
desde
já
como
o Homero das
terras
nordestinas
que
não
são
mais
ásperas do
que
as daquela
península
espantosa
que
abrigou o
Povo
Eleito da
Razão,
como
diz Maritain: direi
que
ele
é o João
batista
de
tal
Homero, fazendo
votos,
entretanto,
que
sua
cabeça
não
seja
pedida
por
nenhuma Salomé.
Eu
disse
que
o Romanceiro se esconde na
pequenez.
Suassuna reagirá
contra
quem
num
revés
de
não
pretender
afastar
essa
cultura
como
coisa
menor,
primitiva,
infantil,
ou
simplesmente
telúrica.
Não
há
obra
de
arte
que
não
venha do
céu,
como
não
há
fruto
ou
erva
da
terra
que
não
venha do
céu.
Será
menor
por
estar
mais
perto
da
terra?
Mas
essa
feição
é
um
modo
de
estar
mais
perto
do
céu.
Como
tão
bem
frisou Suassuna, o
que
não
convém às
obras
de
engenho
e
arte
é a
meia
altura.
Torno
a
dizer
que
é uma
cultura
pequena
sob
a
condição
de
afastar
o
termo
de todas as
conotações
pejorativas, e de aproximá-lo daquela
pequenez
que
Santa
Terezinha do
Menino
Jesus da
Santa
Face
santificou, demonstrando
assim
que
ela
é uma das tantas
formas
da
grandeza
que
neste
mundo,
aqui
e
ali,
nas
mais
adversas
condições
como
no
prodigioso
caso
do Aleijadinho,
nos
é oferecida
já
que
somos
reis.
E
aqui
trago
ao
sábio
estudioso
que
tão
modestamente esconde
sua
grande
cultura
algumas cogitações
que
me
acudiram
ontem
numa
insônia
feliz.
Aquela
estranha
cultura,
aquela misteriosa
arte
“popular”
tem duas
faces
que
sempre
se encontram nas
mais
altas
expressões
do
espírito
humano:
a
espontaneidade
e a
elaboração.
Suassuna mostrou num
quadro-negro
imaginário,
com
didática
excelente,
a elaborada e
difícil
estrutura
do
metro
e
rima
da
poética
do Romanceiro do
Nordeste.
Não
se
trata
de uma
pura
espontaneidade
infantil
ou
imbecil,
que
só
produz a gracinha de
criança
e as enchem
hoje
a
meia
altura
do
mundo.
Trata-se de uma agilidade
que
vence as
asneiras
dos
intelectuais
que
vence uma
dificuldade.
E
aqui
me
vem o
lema
que
Rilke e
São
João da
Cruz
se encontram: “Ao
homem
é
mister
ater-se
sempre
ao
difícil”.
O
brio
do
homem
(a
lembrança
de
sua
coroa)
está nesse
garbo
de se
ater
ao
difícil,
de
realizar
proezas.
E o Romanceiro,
longe
de
ser
uma
cultura
simplesmente
menor,
medida
em
côvados de
progresso
técnico,
ou
mesmo
em
unidades
mais
altas
das
culturas
mais
universais,
tem essa
marca
sem
a
qual
não
mereceria
efetivamente
maior
atenção.
Tem
em
comum
com
os
mais
altos
momentos
da
história
humana
esta
invariante
procura
da
Verdade
e do
Bem.
Suassuna
certamente
preferiria, a
tão
ostensivas e pomposas
categorias,
os
termos
“genuíno”
ou
“autêntico”
que
são
apelidos
da
Verdade;
e
não
me
contestará se
eu
disser
que
através
de todas as
desconcertantes
refrações
éticas
o Romanceiro revela
sempre
a
procura
de
um
Valor,
que
é
outro
apelido
do
Bem.
Creio
que
foi Gustave Thibon, o
lúcido
colaborador de Itineráires, e
amigo
de Simone Weil,
que
disse
ser
o
homem
um
animal
que
valoriza,
isto
é,
que
se move
em
busca
de
um
Valor,
e de
um
supremo
Valor.
E
assim
sendo, o Romanceiro rompe os
limites
asfixiantes do
Regional,
do
folclórico,
e
já
anuncia uma
grande,
uma
incomparável
contribuição
universal,
trazida
por
nosso
Nordeste.
Falei-lhes
em
espontaneidade e
elaboração, e
outra
não é a
composição da
vida
mística
segundo os
mais
doutos:
nos
caminhos da
santidade
Deus dispôs
nossa
alma
para
trabalhar de
dois
modos: o
modo elaborado das
virtudes e o
modo
espontâneo dos
dons.
Assim
também na
poesia. E é
por esta
marca
que,
desde a
lição
ontem recebida de
meu
jovem
amigo Suassuna,
começo a
desconfiar da
real
grandeza do
tesouro
ainda
meio escondido no Romanceiro do
Nordeste.
* * *
Agora
peço ao
meu
amigo
Suassuna
que
pondere o
que
vou
lhe
dizer
sobre
o
que