A VOZ DOS PAPAS CANONIZADOS
Gustavo Corção
A Igreja — diz Santo Agostinho — peregrina no mundo entre as aflições dos homens e as consolações de Deus. Nos dias que correm tornaram-se tão graves e cruéis as aflições trazidas pelos homens que mais imperiosa do que nunca se tornou a procura das consolações de Deus.
São várias as fontes onde podemos receber o alívio e o conforto para a nossa Fé. O principal é sem dúvida o Santíssimo Sacramento do Altar onde Jesus está conosco, como prometeu, até a consumação dos séculos. Aí de nós se, em torno deste calvário de cada dia, deste Sacrifício incruento, os homens da Igreja trouxerem a atoarda do mundo que impede nas almas o contato do grande e decisivo mistério de nossa salvação.
Outra fonte de grandes
consolações, sem as quais a alma católica não pode viver, não consegue
perseverar é a do exemplo dos Santos, que são elevados pela Igreja à glória do
altar, não para acrescentar alguma coisa à glória que já tem no Céu, mas para
nos trazerem o esplendor de esperança irradiado por seu exemplo. A Igreja
Católica é a Igreja de Cristo, e, por conseguinte a Igreja dos Santos.
Mais salutar e vivificante se
tornará a fonte de consolação procurada quando nela se encontram cruzados esses
valores excelsos: o mistério da Santa Eucaristia e o mistério da santidade.
Quando, por exemplo, pensamos num São Tarcísio, nossa meditação encontra um doce
exemplo de conúbio dos dois mistérios. Mais forte ainda será o exemplo trazido
por um São Pio V que nos é apresentado como exemplo de santidade pela obra
principal que nos legou, e que precisamente consiste no resguardo que a
codificação litúrgica o seu santo pontificado ergueu em torno da Santa Missa.
Neste caso o exemplo de santidade nos é oferecido na figura de um Papa. De certo
modo seria razoável esperar em tal cargo tal perfeição já que a boa doutrina nos
diz que Deus assiste com especial abundância de graças aqueles que sobrecarrega
com excepcional peso de cuidados.
Seria de esperar — se os
homens respondessem a Deus como Ele deve ser sempre ouvido — que todos os papas
fossem santos ou deixassem sinais de ardente busca de perfeição. Mas a Igreja de
Cristo, neste mundo, milita asperamente contra três cruéis inimigos: o Demônio,
o Mundo-mundo e o Amor próprio. E é por isto que se vê uma assustadora
diminuição de papas canonizadas, isto é, apontados pela própria Igreja como
exemplo de seguidor de Jesus, na proporção em que, ao longo da história, o
humanismo obscurece o cristianismo, o amor próprio é tido por dignidade humana,
e o mundo-inimigo (Jo XV) é recebido como se coubesse à Igreja a função de se
adaptar a ele, contrariando o que tão energicamente disse o Apóstolo. “Nolite
conformari huic sæculo” (Rom 12, 2). Corramos os olhos pela história da
Igreja.
Até o ano 530 todos os papas
são santos; até o fim do século XIII contam-se mais 19 papas canonizados. A
partir deste século grandioso, século de São Tomás e São Luís de França, século
que nos aparece hoje envolto numa névoa como se fora mais sonho do que
realidade, em toda a enorme distância que nos separa somente dois são os
papas elevados aos altares: Pio V († 1572) e Pio X († 1914).
Impõe-se desde já uma conclusão evidente, sobretudo quando contraposta à sombria realidade dos espetáculos de impiedade que a tantos arrastam para perdição eterna: a criteriosa atenção que merecem as vozes desses dois papas na atoarda que ultimamente se inculca como magistério católico. Se alguém, com fino escrúpulo, quer atender à virtude da santa obediência em matéria sagrada, aproxime-se desses exemplos que, embora afastados na cronologia do mundo, estão mais perto de nós do que a hierarquia atual. Estando colocados no altar, pela autoridade infalível da própria Igreja, estão perto de Cristo que no sacrário está perto de nós.
Este número de PERMANÊNCIA,
motivado pelo que acabamos de dizer, oferece ao leitor matéria de estudo,
meditação e devoção, principalmente em torno de questões que concernem ao
Papado, e especialmente de questões que se referem ao Mistério do Santíssimo
Sacramento do Altar.
Veementemente exortamos:
leitor, procure compreender bem em que consiste o drama de nosso tempo, procure
aguçar a inteligência da Fé, sem a qual corremos o risco de não ver as mais
monumentais pedras de tropeço. Abra os olhos da Fé, alargue o coração para amar
a Deus com a verdadeira Caridade que Ele mesmo nos entregou como um “talento”
de inestimável valor.
Para a melhor compreensão de
teu “Credo”; para maior amor de tua Cruz, aproxima-te daqueles exemplos
magníficos que a Igreja nos oferece. Para isso trabalhamos com fervor
escrevendo, traduzindo e rezando neste número especial que colocamos aos pés da
Virgem Santíssima, pedindo para nossos leitores a graça da lucidez sobrenatural.
(Editorial da Revista PERMANÊNCIA, Nov/Dez de 1975, n° 84/85 Ano VIII)