DESAGRAVO
Gustavo Corção
Na
semana atrasada o hebdomadário O Pasquim apareceu nas bancas ostentando
na capa uma figura convencional de Jesus Cristo, e em letras garrafais o anúncio:
Jesus é a Salvação. Mas logo na página 2 descobre-se a chave da pilhéria.
Ao lado de outra figura convencional anuncia-se que o humour deve ter
nascido da graça divina. E à esquerda, abaixo, lê-se uma entrevista com o
padre Ítalo Coelho sobre o movimento turn on to Jesus, surgido nos
Estados Unidos entre hippies. O Pasquim pergunta: “A revolução com
Jesus pode ser levada a sério?”. E o padre Ítalo, agachado, responde com
todo respeito (pelo O Pasquim): “Acho que ela encerra algo de
existencial muito profundo (...) Acho que esse novo encontro com Jesus é a
única busca válida”. (Grifo nosso).
Estamos
no nível da sarjeta. Na página 3 temos um convencional e fingido respeito para
desnortear os padres e bispos da anti-Igreja. Nas páginas 6 e 7 temos uma
entrevista de Rogéria anunciando que suas (dela? dele?) memórias de alcova
abalariam o Brasil. Este “Rogéria” é um travesti destinado a inculcar na
mente dos moços brasileiros a idéia de que a pederastia é uma atitude “válida”,
como diria o padre Ítalo. O redator de O Pasquim, de passagem, explica
que Rogéria (o) é apenas “um garoto que trabalha para ajudar a família”.
Na
página 10 novamente encontramos o mesmo truque: ao lado de uma figura
convencional, outra de escárnio sobre Jesus e seus discípulos. Na página 15
prepara-se a blasfêmia contra a Ceia do Senhor. Nas páginas 18 e 19 temos
finalmente o Pif-paf de Millôr Fernandes sobre a Ceia do Senhor. E a explicação
da Graça Divina: “Cristo, no meio da refeição, diz alguma coisa irresistível
e todos os apóstolos caem na mais desbragada gargalhada”. Quero ainda crer
que Millôr Fernandes não sabe que na Santa Ceia Jesus anunciou a sua Paixão e
celebrou antecipadamente o sacrifício de seu corpo e seu sangue, derramado para
nossa redenção.
Neste
ponto, recusando-me a acompanhar as intenções dos humoristas de O Pasquim,
que já resvalavam para os esgotos, perdi-me em perplexidades. Ora parecia-me
que não devia tomar conhecimento do fenômeno; ora parecia-me inadmissível
deixar tamanho agravo sem nenhum protesto. No começo do século, um personagem
de Chesterton, em A Esfera e a Cruz, quebra a bengaladas as vidraças do
jornal que ofendia Nossa Senhora. Na Action Française, como “camelot
du Roi”, antes de espancar meio mundo com a pena, Bernanos usou generosamente
a bengala. Mas os tempos passaram, a bengala saiu de moda, como estão saindo o
pudor, o caráter e o respeito. E eu mesmo, que há 50 anos fui esgrimista, só
posso hoje gemer com o alexandrino de Corneille: “O rage, o desespoir, o
vieillesse ennemie”.
Estava
nesse estado de espírito, imaginando um apelo patético aos autores da torpeza,
no qual lhes pediria que evocassem um ser amado e venerado vivo ou morto, sombra
de mãe a desvanecer-se na memória, ou figura em flor de criança inocente a
nos pedir a forma mais profunda de respeito; estava eu quase a pedir-lhes, a
rogar-lhes, a suplicar-lhes que se detivessem numa linha divisória, que
tirassem as sandálias antes de pisar um chão sagrado, quando me ocorreu um
versículo do Novo Testamento relativo a perolas e a porcos. Imaginei então
dirigir um apelo às autoridades eclesiásticas, e estava a imaginar os termos,
quando vi na última pagina esta inacreditável declaração:
Todo
o material publicado neste numero de O
Pasquim sobre a redescoberta de Jesus Cristo pela juventude de nosso tempo
— fenômeno que a Igreja Católica está estudando com o maior cuidado — foi
lido pelas Autoridades Eclesiásticas da Guanabara e considerando matéria
jornalística que não atenta contra os princípios cristãos de nosso povo.
J.A.
de Castro Pinto
Rio,
19/07/1971.
Bispo
Auxiliar do Rio de Janeiro.
Vejo
então que O Pasquim tem assistente eclesiástico, e nihil obstat
para fazer chalaças com a Ceia do Senhor e, portanto, com o Sangue de nosso
Salvador.
Dom Castro Pinto fala ostensivamente em nome das AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS para aprovar a blasfêmia e para injuriar a juventude brasileira, cuja sensibilidade julga e mede pela sua própria. Não tendo ele sentido nenhuma repulsa, nenhuma cólera diante do escárnio feito a Nosso Senhor Jesus Cristo, imagina que ninguém o sentiu. E julga falar em nome da Autoridade para cobrir de vergonha e tristeza os católicos do Brasil e especialmente os da Guanabara. Valho-me eu de autoridade maior para dizer a D. Castro Pinto que repilo sua declaração e que me subtraio do domínio em que julga ter jurisdição para afirmar tranqüilamente que estão erradas as Sagradas Escrituras onde dizem: “Deus non irridetur”.
Não fiz nenhum voto de estupidez e de hipocrisia e não posso aceitar de nenhum degrau da hierarquia que me venha dizer que “é válido” blasfemar, que não há nenhum mal em zombar das coisas santas, já que tudo, uma vez impresso, vira “material jornalístico”. E lembro a epístola de São Paulo aos Gálatas: “Ainda que eu mesmo, ou um anjo descido dos céus, vos anunciasse outro evangelho e não este que vos anunciei, seja anátema”.
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Numa de suas alocuções no programa VOZ DO PASTOR, o cardeal Eugênio Salles, em tom de advertência, lembra que devemos todo o respeito e acatamento à CNBB. Eu perguntaria respeitosamente a Sua Eminência se este tópico se refere a mim ou aos membros da CNBB que a desmoralizaram. Conheço um que em sensacional entrevista nunca desmentida declarou admirar e amar com carinhoso fervor os rapazes que assassinam e roubam sob o pretexto de uma revolução que hoje só engana os imbecis. Conheço outro que celebrou o 450° aniversário da apostasia de Lutero, comparando-a “à independência do Brasil!!!” e que agora diz que as Autoridades Eclesiásticas da Guanabara aprovam o material jornalístico de O Pasquim.
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A conclusão que tiro de tudo isto é que somente A Cruz [1] e o autor destas linhas escrevem coisas reprováveis contra a Fé e os costumes. Esmague-se A Cruz, silencie-se o escritor e reinará na Guanabara a desejada paz dos pântanos, aonde, a perder de vista, se espraiará uma multidão de respeitosos e respeitosas, entremeados de muitos travestis “que trabalham para ajudar a família”.
(O GLOBO, de 05/08/1971.)
[1] [N. da P.] "A Cruz" era o nome de um antigo periódico católico carioca.