JK, Corção e os telefones de Brasília

Dom Lourenço Fleichman OSB

 Mais uma vez a Rede Globo de televisão usa seus poderes mágicos para criar um mito, mentindo e enganando o povo simples. Usaram o nome de Gustavo Corção, no capítulo da Minisérie JK, sobre a vida do presidente Juscelino Kubitschek, levado ao ar em 16 de março último. Eis a passagem:

Cena 1: (Carlos Lacerda discursa)

 Carlos Lacerda: "— E não sou só eu que digo, o Gustavo Corção, que sabe tudo de engenharia, também afirma que não haverá telefones em Brasília. O sistema que existe, é precário. E esses incompetentes não vão conseguir instalar um sistema suficiente, que ligue a capital aos grandes centros.

Cena 2: (Juscelino Kubitschek fala aos jornalistas)

JK: "— Não, não, podem ficar tranqüilos, Brasília vai ser inaugurada na data prevista  e os telefones estarão instalados e funcionando. É uma promessa e um convite Nós estaremos em Brasília e de lá telefonaremos para o Rio de Janeiro.

Repórter: “— Aproveitamos, e podemos ligar para o Corção, presidente.”

JK: “— Combinado, você fará a ligação.”

Repórter: “— Eu?”

Cena 3: Sarah, esposa de JK, fala ao seu marido.

 Sarah: "O que me espanta, não é o Gustavo Corção falar sobre coisas que ele não sabe, mas os jornais publicarem o que ele escreve. Ele e todos os outros que falam mal de você. (...)”

 

Um dos pesquisadores da Rede Globo me havia telefonado, semanas antes, querendo saber detalhes desta polêmica sobre os telefones de Brasília. Pelo visto nem sabia quem era esse tal Corção. Se soubesse teria ido direto à Biblioteca Nacional, bastando pesquisar no Diário de Notícias, Estadão ou outros jornais importantes de 1959 e 1960. Eu não podia muito lhe ajudar porque sabia que a direção da série JK só usaria o nome de Gustavo Corção para denegri-lo, fazendo-o passar por um tolo. O que eu não sabia é que o texto da novelinha jogaria lama justamente sobre o que Corção mais tinha: conhecimento do assunto.

Mesmo assim, expliquei ao pesquisador que o autor em questão era simplesmente o fundador da cátedra de telecomunicações no Brasil, iniciando o curso de Eletrônica aplicada às Telecomunicações, na antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Professor também da Escola Politécnica do Exército, aquela que hoje se chama IME. Percorreu o oeste do Brasil carregando em lombo de burros os cronômetros de alta precisão que serviram para elaborar os fusos-horários no Brasil. Trabalhou no estabelecimento do primeiro serviço de telefonia internacional entre o Brasil e a Europa.  Inventou um órgão eletrônico quando não existia ainda aparelhos semelhantes, abandonando suas pesquisas na área, depois de ter construído ele mesmo alguns protótipos,  quando um certo Moog produziu comercialmente seus instrumentos na França. Quando eu era criança, tive a oportunidade de ouvir um desses protótipos ainda em funcionamento.

O tal historiador da Rede Globo não sabia de nada disso. Tinha de Gustavo Corção apenas as informações oferecidas por esta casta dos jornalistas e intelectuais que o odeiam e que só conseguem lidar com ele na base da mentira e do mito. Se Corção fosse vivo, certamente o temeriam, além de odiá-lo, mas já que sua pluma não os incomoda mais, fica fácil estrebuchar sobre seu cadáver. 

Um exemplo típico dessa parcialidade atual é a crítica sobre a inauguração da nova capital: tudo é apresentado como se Brasília fosse um grande sucesso de organização, de racionalidade, de futuro. Para começo de conversa é preciso lembrar e explicar aos jovens jornalistas e estudantes de Comunicação que a grande crítica feita na época da construção de Brasília não vinha do esforço de se levar o progresso ao Oeste brasileiro, e sim da estapafúrdia idéia de que para tanto era preciso levar para o deserto a própria capital do país. Até mesmo porque deveríamos questionar, levados pela atualidade do debate renascido da idolatria ao defunto presidente, qual a vantagem que hoje, em pleno século XXI, Brasília traz para o Brasil. Digam-me, senhores, porque Brasília e não Rio de Janeiro ou Belo Horizonte? A crítica de Corção era perfeita: se para levar o progresso é preciso mudar a capital, então daqui há poucos anos, querendo levar o progresso a outro ponto ermo do território nacional, façamos nova mudança da capital. Parece cômico? Brasília é uma piada, apenas é uma piada que só tem graça para quem conhece os dados do problema. Quem pagou a construção da nova capital foi o bolso dos brasileiros, como hoje é o mesmo bolso que paga as barbáries do MST ou as paradas gay. Querem um exemplo patente? Juscelino afirmava que a favela que se formou ao lado da cidade em construção seria destruída por um fogo purificador, "logo que Brasília esteja terminada" (cf. Diário de Notícias, 1/2/1959). Foi?

Os jornais de 1959 noticiaram, por exemplo, que os membros da Mesa da Câmara dos Deputados, voltando de Brasília onde foram vistoriar as obras, em início de outubro de 1959, declararam que era muito difícil inaugurar a cidade em abril de 1960. Outras comissões já alertavam para o fato seis meses antes. Basta pesquisar nos jornais para se ver com clareza que este espírito "empreendedor", "progressista", do então presidente, baseava-se apenas nos seus sonhos envolvidos por um cenário de soluções "mágicas" que, sem medir os gastos, por motivos puramente políticos, foram enganando a opinião pública e desviando a atenção da realidade. No caso, a inauguração houve, mas o governo não podia funcionar. Brasília já nasceu governando o país do aeroporto, e assim continua até hoje. O caso dos telefones foi um destes passes de prestidigitação.

Parece que a primeira menção à questão dos telefones está no artigo que Gustavo Corção escreveu nos jornais, chamado "Fioretti", de 1º de fevereiro de 1959. Eis a passagem:

"Anunciavam as folhas, na semana passada, que Brasília vai ter telefones ultramodernos de fabricação sueca (Erikson) e que já estão providenciando a instalação de cinco mil dessas preciosidades. Gostaríamos de saber quanto vai custar a rede urbana de telefones em Brasília e quanto vão cobrar do assinante. Na parte interurbana, por enquanto, não há nada encaminhado e fique desde já sabendo o funcionário escalonado para o grande desterro que não poderá contar tão cedo com ligações telefônicas. Vão fazer uma tapeação com um transmissor de rádio, uma espécie de instalação de amador, que permitirá quatro canais telefônicos no máximo. Salta aos olhos que, com tão diminuto número de canais, o telefone interurbano estará todo o tempo ocupado pela família do presidente da República"

Poucos meses antes da data prevista para inaugurar a nova capital, JK anuncia que a cidade contará com um sistema público de telefonia. Gustavo Corção vai então dar uma aula sobre a questão, mostrando categoricamente que não era possível instalar um sistema público, no sentido próprio do termo, mas apenas uma solução de emergência, amadora, precária e limitada:

Trata-se das comunicações telefônicas de Brasília. Antes de mais nada é preciso frisar que há dois serviços em andamento com o mesmo objetivo. O primeiro é formado por estações de Rádio de ondas curtas, com modulação chamada de single-side-band permitindo doze canais. Esse sistema tem a conhecida precariedade, que consiste na instabilidade do nível e na dependência das condições atmosféricas. É um serviço de emergência, medíocre na qualidade, escasso na quantidade de canais que mal darão para o Palácio da Alvorada. O segundo serviço, o único que merece o título de serviço público, e que permitirá 120 canais, é constituído pelo sistema de micro-ondas, com estações de recepção e retransmissão escalonadas ao longo da imensa distância. (Leia o artigo na íntegra)

No artigo seguinte, o jornalista engenheiro de telecomunicações dá conta do estado das obras das sub-estações:

"Agora alguns pormenores sobre a situação em que se acha a micro-onda. Não tenho notícias do estado em que se acham as vinte e tantas estações que a NOVACAP deverá construir entre Belo Horizonte e Brasília. Tenho, entretanto, notícia de uma estação próxima, a que se situa em Juiz de Fora e que leva a enorme vantagem de não precisar de estradas de acesso. O colega que me telefonou de lá (vejam como é bom o telefone!) informou que as quatro paredes do prédio estão levantadas, sem piso, sem fundações para as máquinas, e sem vestígios de torre. No dia da semana passada em que recebi este telefonema, os 16 operários tinham abandonado a obra por falta de pagamento e o pobre do empreiteiro anda por aí, entre o Rio e Brasília, a procurar quem lhe pague o que ficou combinado. Como os tempos são de Carnaval, imagino o empreiteiro a cantar pelas ruas: “Me dá um dinheiro aí!”. Na semana passada saiu uma notícia de um decreto presidencial desapropriando um terreno em Paulo de Frontin para aí montar uma das vinte e tantas estações. Por onde se vê que as comunicações regulares e excelentes entre Brasília e Rio só ficarão prontas, se ficarem, dentro de um ou dois anos." (Leia o artigo na íntegra)

Não deixa de ter sua graça o modo como, dentro desse contexto, apresentou-se em visita a Brasília o próprio presidente dos Estados Unidos da América. Corção comenta a notícia tal como foi anunciada no jornal Diário Carioca:

Admiremos na primeira notícia a passagem em que o cronista declara que o avião americano está “poderosamente equipado” para permitir um contato com a Casa Branca, sem admitir que seu leitor desconfie que Brasília devia estar um pouco mais equipada do que um avião. O avião presidencial vem a Brasília como se viesse ao Pólo Sul. Na segunda notícia admiremos a simplicidade com que o jornalista diz que haverá uma limpeza geral em Brasília: mas então quem receberá os americanos? Na terceira notícia admiremos comovidos a candura do jornalista que ao mesmo tempo está entusiasmado com o adiantamento de Brasília e declara que os jornalistas brasileiros só terão notícias dos festejos por intermédio dos aparelhos que os americanos gentilmente emprestarão. (Leia o artigo na íntegra)

Depois disso o Brasil entrou numa fase difícil de ser imaginada nos dias de hoje. Depois de tentativas de jogar a inauguração para setembro, vésperas das eleições, Brasília se tornou uma capital simbólica. Nada funcionava ali. Uma capital fantasma onde todos reclamavam de tudo: os deputados federais reclamavam que se tornaram meros vereadores, diante de tanto que havia por fazer na nova cidade; além disso não havia como o Congresso funcionar numa cidade em que, segundo os próprios moradores, o caríssimo telefone só servia de objeto de ornamentação. Passaram-se muitos meses antes que o sistema de telefonia por microondas fosse de fato instalado. Os artigos de Gustavo Corção e de outros jornalistas da oposição foram dando conta de tudo isto.

Agora, se preferirem o mito, então liguem a televisão! Assistam à Minissérie JK, que usa todos os artifícios para enaltecer, naquele estilo hagiográfico que se afasta da verdade para esconder os defeitos do homem. E saboreiem o prazer delicioso de acreditar em mais um duende, em mais um semi-deus deste Olimpo brasileiro deitado em berço esplêndido.

Temos assim, em poucas linhas, a verdade sobre a polêmica, sobre os desmandos e loucuras de Juscelino Kubitschek, com seus sonhos, sua demagogia simpática porém irresponsável. Temos aí a honra e a verdade sobre Gustavo Corção que merecia dos letrados deste país um pouco mais de consideração e respeito. A decadência é a nossa realidade nas letras e nas artes, enquanto que da Brasília atual... bem, não vale nem a pena falar.

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