Escritores e artistas falam sobre Gustavo Corção

“A batalha da fidelidade confunde-se com a luta contra a barbárie, combate esse prioritário para a civilização. Mas a infidelidade como que vai arrombando todas as portas — até mesmo, paradoxalmente, as da fé.
Por isso, a presença na liça de homens como Gustavo Corção é duplamente preciosa: pelo valor real que o sábio católico armazena consigo e que ninguém isentamente lhe poderá negar, e pela necessidade premente de cruzadas como a sua.”
(MOACYR PADILHA, Editorial de O GLOBO, de 14-1-1969, intitulado: “Um brasileiro que usa boina”.)

“A maioria dos brasileiros conhecem duas faces de Gustavo Corção. Uma, a do escritor exímio, a usar como ninguém a língua portuguesa, o autor que, vivo ainda, graças a Deus, é um indiscutível clássico da literatura nacional.
A segunda face é a do anjo combatente, de gládio na mão, a castigar os impostores que vivem a gritar o nome de Deus e da sua Igreja, não para os louvar, antes para os apregoar na feira inocente-útil do 'progressismo'.
Mas há uma terceira face de Gustavo Corção, e essa só a conhecem aqueles que receberam a graça do seu convívio e da sua afeição: é a ternura do amigo, a extrema solicitude na amizade, aquela caridade do coração que é a coroa de todos os afetos.”
(RACHEL DE QUEIRÓS, da Academia Brasileira de Letras.)

“Um grande escritor, quando dele divergimos, sempre deixa espaço na sua obra para que o admiremos.”
(JOSUÉ MONTELLO, da Academia Brasileira de Letras.)

“Quem, neste breve comentário à figura extraordinária de Gustavo Corção, procura compreender e destacar em suas idéias e em sua ação o essencial de uma personalidade superior a contingências estandardizáveis de homens em sub-homens, não o faz como católico porque não é católico; nem como sociólogo, porque talvez não seja estritamente sociólogo. São palavras, estas, inspiradas pelo autêntico escritor que é Gustavo Corção a um possível escritor, como ele, mais pessoal que caudatário em suas atitudes. Inclusive em suas atitudes para com o que é apenas imediato ou somente quantitativo no tempo que um homem vive.
Pois esta é uma das mais belas afirmações de personalidade que em Gustavo Corção transborda do homem no escritor: a de uma alma para quem o tempo imediato, o próprio tempo histórico, quase não conta, tantos são os seus compromissos com o trans-tempo.”
(GILBERTO FREYRE, sociólogo, escritor, do Conselho Federal  de Cultura.)

“O equilíbrio no julgamento dos problemas humanos, aquilo que os ingleses chamam de sound judgement, é um dos dotes da personalidade de Corção. Decorre do caráter quase universal de sua cultura. Cultura literária, cultura humanística, cultura matemática e física, conhecimento da técnica, capacidade de meditar, tudo isso, ajudado por esse dom precioso que se chama de 'bom senso' ou equilíbrio mental, faz com que, ao se defrontar com qualquer problema, seja ele humano, técnico, ou político, ele possa apreciá-lo por vários ângulos, sem nunca 'desgarrar' por incapacidade de compreender ou de sentir qualquer de seus aspectos. Esse é um dom muito raro.”
(EUGÊNIO GUDIN, economista, escritor e jornalista.)

“Sempre cordial no trato e original no que diz ou escreve — eis o Corção que mais admiro.
Mas há ainda o Corção poeta, o que entremeou de alguns trechos genuinamente poemáticos o Lições de Abismo.
É o Corção com quem mais me identifico.”
(CASSIANO RICARDO, poeta.)

“A intransigência em que se mantém não é a intransigência dos que não querem ver ou dos que desejam tornar-se diferentes. Ao contrário, é, não esqueçamos, a fidelidade a uma concepção que temos de admitir e de louvar como expressão da dignidade de quem nela se mantém firme e não anda a mudar de posição a todo momento.
Mas Gustavo Corção não é só o homem que fere as coisas e os homens indo direto aos pontos de discordância. É o homem de espírito, com a palavra fácil, objetiva, o jornalista que se lê sentindo a segurança de sua afirmação, o escritor-crítico-ensaísta que escreve com rigor de linguagem, profundo conhecimento da matéria que versa.”
(ARTHUR CÉSAR FERREIRA REIS, historiador, do Conselho Federal de Cultura.)

“Agora, ali, além disso, eu descobria que aquela idéia que eu tinha formado de Gustavo Corção, através de pessoas hostis a ele, era inteiramente falsa. Ele era um homem boníssimo, talvez impulsivo e arrebatado nos seus impulsos, mas de uma bondade que transparece à primeira aproximação, nos seus olhos pequenos, azuis, vivos, risonhos, inteligentes e que — por mais estranho que isso possa parecer a quem não o conhece ou não gosta dele, de longe — são olhos de menino. Ele não tem nada de intratável: apenas é um homem de princípios, corajoso e inflexível quando sustenta os princípios que julga certos. Mas com as pessoas, não. Se ele descobre que temos outras idéias mas, ao mesmo tempo, descobre que sustentamos essas idéias não por má-fé ou covardia, e sim por convicções — que podem estar erradas, mas são leais e firmes como as dele — discorda, mas respeita-nos e não nos nega a sua amizade.”
(ARIANO SUASSUNA, escritor, teatrólogo, do Conselho Federal de Cultura.)

“Outra figura brasileira consagrada pelos palavrões: Gustavo Corção. Ninguém diria, de maneira sucinta e inapelável: 'É uma besta!' Bem que as esquerdas gostariam que o fosse. Mas os seus piores inimigos sabem, e não teriam o cinismo de negar, que Gustavo Corção é uma das inteligências mais sérias do Brasil.”
(NELSON RODRIGUES, jornalista, escritor, teatrólogo.)

“A revista filosófica e teológica francesa Itinéraires, de grande prestígio e larga divulgação, publicava, há alguns anos, artigos de Gustavo Corção, uns traduzidos por Hugues Keraly, mas outros redigidos diretamente em francês. Os conhecedores da boa língua constataram imediatamente que ele trazia algo de novo em nossa língua, uma construção de frase surpreendente, um calor todo brasileiro e um humor muito pessoal. Na conversação em francês ele escolhia suas palavras, mas percebia-se rapidamente que sua brilhante inteligência adivinhava todas as finesses da língua, o que não é dizer pouco. Escrevendo, ele procurava também suas palavras, trabalhava seu texto, mas o esforço não aparecia, e sua arte de colocar os termos segundo um certo ritmo fazia de suas frases e de artigos inteiros verdadeiros poemas a serviço de um pensamento ao mesmo tempo muito claro e muito profundo, fácil de compreender. Era, em suma, um grande escritor, isso é que é.”
(BERNARD BOUTS, escritor e pintor francês, O GLOBO, 11-7-1978.)