
UM BRASILEIRO QUE USA BOINA
Editorial de O GLOBO, 14 de Janeiro de 1969
Vivemos
num mundo que rasga tratados, que ignora juramentos, que despreza compromissos.
Em nome de uma “civilização futura” —
cujos contornos não se pode prever —
procura-se desmoralizar a civilização passada, como se no passado não se
contivesse o germe do futuro.
Civilizar
é obra de gerações. Destruir tudo para começar tudo de novo é correr o
risco de uma queda no primitivismo, na barbárie.
Esses
conceitos óbvios ora sofrem contestação inconseqüente num século em que a
“promotion”, o jogo de aparências como que pretendem esmagar as essências.
Reina
a moda em todos os setores —
não apenas no da indumentária. As idéias converteram-se em tributárias da
“onda”. Variam como as coleções dos costureiros parisienses. A busca sôfrega
do que se apelida de novo é uma fábrica de doidos estereotipados.
Fácil
é avaliar como tal clima favorece a ascensão dos moedeiros falsos. As artes,
as letras e mesmo as ciências foram invadidas por esses travestis que se fazem
passar por algo que jamais poderão encarnar com naturalidade.
Se
em qualquer época homens fiéis são a base de tudo, hoje, com a raridade,
esses espécimes tornam-se ainda mais preciosos diante da legião dos inimigos
dos valores eternos, que se infiltram, por todas as brechas.
“O
juramento é aquilo que nos diferencia, já não digo dos selvagens, mas das
bestas e dos répteis”. A frase é de Chesterton, que Gustavo Corção assim
comenta: “Aí está a idéia a que me refiro. Diz respeito à promessa, ao
juramento, ao voto, ao pacto, à aliança, à palavra dada. Trata-se, em suma,
da fidelidade, desse elemento dual e primeiro, que é a própria base do
direito, e sem o qual o homem, com todas as suas maravilhosas e orgulhosas
conquistas —
seus navios aéreos, seu radar e sua bomba atômica —
se tornará um bárbaro”.
A
batalha da fidelidade confunde-se com a luta contra a barbárie, combate esse
prioritário para a civilização. Mas a infidelidade como que vai arrombando
todas as portas —
até mesmo, paradoxalmente, as da fé.
Por
isso, a presença na liça de homens como Gustavo Corção é duplamente
preciosa: pelo valor real que o sábio católico armazena consigo e que ninguém
isentamente lhe poderá negar, e pela necessidade premente de cruzadas como a
sua.
Num
período em que membros da Igreja Católica não conseguem estabelecer uma
distinção clara entre a indispensável atualização e a execrável traição,
a palavra de Corção cresce em importância.
“Vivemos
hoje num mundo que tenta afirmar a soberania do homem, e até a sua divinização
já que sem deuses não sabemos viver. E é tão insolente essa idolatria que já
se pode falar em perseguição do cristianismo. A Igreja está intimada a adorar
o mundo”. (Corção, “Dois Amores, Duas Cidades”).
Num
mundo em que os profetas do marxismo procuram implantar a destruição de todos
os valores em nome de um sistema totalitário escravizador, o apostolado de Corção
converte-se numa fortaleza da desmistificação.
Gustavo
Corção, o brasileiro que no inverno usa boina, é um homem-farol. Sua lâmpada
mostra os caminhos com espantosa clareza.