RÁPIDAS LEMBRANÇAS, MARCAS PERMANENTES
Helena Ferraz Rodriguez
—
Era preciso arranjar trabalho, de qualquer maneira; sobravam dificuldades,
faltavam diplomas; o recurso era tentar um exame na Alliance Française. Sem
tempo para estudo, para rever programas, reli atentamente os artigos de Dr. Corção
no Suplemento Literário do “Diário de Notícias”. Apresentei-me à banca
examinadora levando na memória e o coração o sabor, entre outros, de “Técnica
e Poesia”. O resultado? Bem, o resultado, o Dr. Corção foi o primeiro a
conhecê-lo com meu grande “merci”.
—
Só de ler tal escritor, tanto enriquecimento. Por que não escreveu mais livros
de ficção depois do antológico “Lições de Abismo”, traduzido em tantas
línguas! Não sabem, ou não se lembram? Porque, dizia ele, tenho um “noivado
no Céu”; foi mais fiel a este noivado que muitos a um casamento. Era “Dieu
premier servi”, como gostava de dizer seguindo Joana d’Arc, era o
“Sangue de Jesus” que não podia ser derramado em vão. Este Sangue selou o
fim de sua vida, seu último artigo dele tratava. “Vou ao Sangue”, dizia
Catarina de Sena quando ia confessar-se; tantas e tantas vezes disto nos
entreteve Dr. Corção! Pois foi, dia 6 de julho, ao encontro do Cordeiro, o
Cordeiro do Sangue derramado, e celebraram-se as bodas depois de longo, fiel,
doloroso “noivado”.
— Segundas-feiras, ano após ano, no Centro Dom Vital, Cenáculo, Imaculada Conceição, PERMANÊNCIA enfim, nos falava, ardentemente empenhado na formação das almas e das inteligências, incansavelmente ensinando a pensar. Sem ser filósofo, sem jamais dizer-se teólogo, nos fornecia os subsídios necessários para que crescêssemos numa exigência intelectual, e sobretudo, sim, sobretudo no amor de Deus, no amor do próximo e na entranhada, intransigente defesa da Esposa de Cristo, a sua Igreja.
“Dr.
Corção, queria sofrer como o Senhor pelos sofrimentos de Nossa Mãe igreja!
Choro porque não choro bastante!” —
“Helena, não peça isso a Deus, você tem muitos encargos ainda, é quase
impossível viver com essa dor na alma...”
—
E os mergulhos nas cavernas do “eu”, quem nos ajudará agora a fazer? Quem
nos falará —
quem fala ainda do amor-próprio, da ferida do pecado original, do “vivere secundum seipsum”? quem nos poderá dar o fio de Ariadne
nos permitindo enfrentar o nosso submundo sem nos perdermos em seus meandros?
Tenho
diante de mim cópia de seu inacabado “Petit
Traité de l’Amour propre”, com letras mal traçadas por cima de listras
grossas, vermelhas, última instância para seus olhos quase velados.
“Cette
étude, si je ne réussis pas à la faire, doit être recommencée à tout prix”.
Sim, Dr. Corção, tem que ser retomado o assunto vital, mas por quem?
— Quem tornará a nos dar lições de abismo?