OSWALDO DE ANDRADE escreve sobre Gustavo Corção
“Não
me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma
figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de
Souza, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o
nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na
Europa me liguei a Picasso e Leger, Cocteau e Cendras, a esse original e magnífico
Valéry Larbaud, a Supervielle e Romains, enfim, a toda uma geração revolucionária
do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sarcástica,
alguém me lembra o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de
70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o
encontrei, no Quartier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia
considerado o maior gênio musical do século XX.
O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o
que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável — faca de
dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem, sem dúvida,
o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também na Descoberta
do Outro não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de
restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece
agora um mestre do romance brasileiro.”
Correio
da Manhã, Rio de Janeiro, 5-4-1952