TESTEMUNHO
Júlio Fleichman
Não
me foi possível escrever o Editorial deste número limitando-me a dizer alguma
coisa a respeito de Gustavo Corção somente na perspectiva da nossa PERMANÊNCIA.
Com uma vida de tal modo entrelaçada com a dele —
mais do que uma honra, uma
graça recebida com plena consciência disso —
não poderia deixar de incluir
neste número especial a ele dedicado, alguma coisa em meu nome a respeito do
grande paladino da Igreja, instrumento de Deus, amigo e pai.
Muitos
já falaram do escritor, do estilista, do combatente, tanto amigos como inimigos
inclusive —
o que talvez seja o pior —
inimigos que minimizam o valor
daquilo que fundamentalmente os separava. Raros dizem de Gustavo Corção alguma
coisa sem se lembrarem de São Paulo e de suas palavras, “bonum certamen
certavi...”. Todos associam a nobreza clássica de seu estilo a Machado de
Assis. Uns lembram com razão a espantosa convergência, na mesma pessoa, de um
raro e penetrante espírito científico e um ainda mais raro dom de verdadeiro
poeta. Os amigos, estes sabem o quanto a fina sensibilidade de Gustavo Corção
fazia-o notar delicadas nuances na complexa trama de relacionamentos pessoais.
Direi eu também, espero, alguma coisa disso. Finalmente, alguns provaram a
ponta de sua espada e dentre estes, houve quem dissesse dele: “um homem
mau”.
Do
ponto de vista que mais me impressionou quando, já há muito seu companheiro de
trabalho, tomei consciência disso, gostaria de submeter à atenção de quem,
por acaso, leia este artigo, que se dê conta da linhagem espiritual a que
pertence Gustavo Corção, linhagem que atesta a presença de Deus ao longo da
história, digamos, espiritual do Brasil. Este pobre grande povo que ainda é,
em sua simplicidade fiel, mantém a seu modo uma fundamental atitude de piedade
religiosa que as organizações episcopais se esforçam por erradicar ou
transformar em algo parecido com as reivindicações sindicais. Nunca nos faltou
algum representante dessa raça de soldado católico cuja fundamental característica
é uma decidida atitude de servidor da Verdade e cuja qualidade fundamental é a
força com que Deus o dotou, instrumento adequado para combater em favor desta
Dama. Se o Brasil tem em seu passado grandes vultos de homens religiosos
ligados, de algum modo, à Igreja e à fé —
bispos, pregadores, escritores, músicos —
não é nesses e sim em uma especial dinastia de combatentes católicos
dotados de fina acuidade que me parece haver antepassados espirituais e
antecedentes históricos de uma influência do gênero da que exerceu Gustavo
Corção.
Penso,
em um Visconde de Cairú e sua atuação na Assembléia de 1823. Lembro-me da
agradável surpresa com que ouvi, em conferência pronunciada por notável
historiador, como se distinguiu e como se elevou acima das posições pouco
inteligentes dos liberais tipo “Andradas”
e dos conservadores tio “catolicões”, o bom senso e a energia de
Cairú. Esta surpresa foi tanto mais agradável quanto mais pude notar que o próprio
conferencista, liberal de esquerda, ficou irritado ao descobrir que havia,
involuntariamente e pela própria lógica de sua exposição, assinalado como um
homem superior aquele que, para seu horror, defendia na Constituinte por
exemplo, que só católicos podiam ter a liberdade de culto público segundo a
tradicional e imutável posição da Igreja.
Não
nos faltou, ao Brasil, um Carlos de Laet e sua alegre esgrima de bom polemista e
sua bela linguagem de grande escritor.
Tivemos
Jackson de Figueiredo cuja influência pessoal marcante se impôs a católicos
mais ou menos medíocres (embora em posições destacadas). Arregimentando-os,
conseguiu deles que fizessem obra digna de atenção e apreço, enquanto Jackson
viveu.
E
tivemos Gustavo Corção, o maior de todos, cujo valor intelectual,
sensibilidade de artista, pena de grande escritor, penetração aguda e
familiaridade pessoal com a ciência, reuniam em uma só e grande figura tantas
notáveis qualidades a serviço da fé, do combate pela causa da Igreja, do
serviço do Cristo Jesus.
*
* *
Dos
testemunhos que ouvimos nos dias de sua morte, há dois que incluo aqui porque são
importantes e porque talvez se percam se o não fizer. De um padre ouvimos, vários
dos seus amigos, que ao receber pela primeira vez Gustavo Corção que vinha se
confessar, sentou-se no confessionário impressionado com aquele “gigante”,
segundo suas palavras, que vinha ajoelhar-se ao seu lado —
“Ouvi, em
seguida, uma confissão de criancinha”, disse-nos ele. E de outro padre, este
falando do púlpito, em missa por sua memória, ouvimos que atender a Gustavo
Corção que se confessava, fizera-o sentir uma grande vontade de ser melhor, de
ser mais padre.
Os
novos amigos com quem convivemos hoje e aqueles que de nós se afastaram talvez
não saibam, ou se tenham esquecido, que por volta de 1949, 1950, um curioso fenômeno
ocorreu. Vindos das mais diversas origens, ricos uns, pobres outros; uns, católicos
toda a vida, outros, recém-convertidos e entre estes, um pobre judeu ainda
tateando no meio de sua confusões; uns mais moços, outros já maduros; casados
ou solteiros, em suma, cerca de quinze ou vinte pessoas se congregaram em torno
das aulas de Gustavo Corção no antigo Centro Dom Vital. Com os anos, outros
apareceram e se juntaram a nós, enquanto que, por sua vez, alguns se separavam,
quer por simples razão de circunstâncias, quer por divergências que os
levaram a caminhos diferentes.
Muitas
vezes conversamos entre nós, conscientes de que estávamos recebendo grandes
graças na convergência que nos unia em torno dele por causa da beleza da obra
de Deus e de sua doutrina que nos ia sendo desvendada ao longo do itinerário
que seguíamos com ele, como se fossemos peregrinos de Emaús. Muitas vezes nos
perguntávamos, um pouco inquietos, o que seria que Deus esperava de nós pois
era quase evidente que Sua mão nos havia trazido e Sua voz nos formava através
de Gustavo Corção. Inquietava-nos a consciência de que nenhum de nós parecia
dotado de qualidades que fizessem esperar um continuador à altura de Gustavo
Corção. Lembro-me do alvoroço com que recebemos um dos novos membros do
Centro Dom Vital cuja graça no escrever, cuja cultura e afinidade com nosso
pensamento por um instante deu-nos a esperança de havermos encontrado um possível
discípulo para o nosso mestre. Mas a bela esperança desvaneceu-se e nosso
amigo, depois de combater algum tempo a nosso lado, esgrimindo muito bem contra
os “estudantes” do “Metropolitano” —
órgão esquerdista da época —
ocupou-se com outras coisas e se esqueceu, parece, não apenas de nós mas da
necessidade de atender a um combate mais alto.
Hoje
sabemos, creio eu, para que o Senhor nos chamou e para que tão longamente, por
quase 30 anos, preparou-nos com tal mestre. Preparou-nos como Ele mesmo se
preparou no Horto das Oliveiras para a Sua hora. Guardadas todas as proporções
e feitas todas as distinções, o Senhor Jesus preparou-nos para a Paixão da
Igreja e o fez do mesmo modo pelo qual Ele próprio se preparou para a Sua Paixão.
Assim como, pelo suor de sangue abriu os poros e exasperou a sensibilidade da
pele para ser pouco depois flagelado, assim preparou nossa alma e nossos corações
através de um mestre excepcional que pôde, com fino discernimento e admiração,
transmitir a seus alunos a grandeza e a beleza, a majestade e a bondade e as
exigências da Verdade subsistente. Lembro-me bem das suas aulas e das vezes em
que nós percebíamos no orador, que se esquecia por um momento dos alunos,
brilharem-lhe os olhos, exprimir no rosto o deslumbramento e o amor que as
coisas de que falava despertavam dentro dele. Foi assim que fomos preparados.
Seus ensinamentos e exemplos e conselhos, ao mesmo tempo retificavam muitas
deformações que o século, a escola, o jornal haviam introduzido em nossa
inteligência e em nossa sensibilidade e, nas nossas almas debruçadas derramava
os dons que recebera da Igreja, dos grandes santos doutores, pregadores,
confessores e mártires. Foi assim que fomos preparados para que a Paixão da
Igreja nesta hora de trevas não fosse recebida apenas por pessoas indiferentes
ou meio-adormecidas que se ponham a diminuir a gravidade imensa da tragédia que
se desenrola sob seus olhos. Para tão terrível espetáculo e para tão dramático
flagelo em que vemos não só bispos e padres —
quase todos e em quase todos
os lugares —
mas até as próprias autoridades do Vaticano, o próprio Papa
falarem linguagem diferente daquela que a Igreja usou durante 20 séculos e
evidentemente porem a perder tantas almas, para isso, era preciso, é imprescindível
que uma espécie diferente de martírio abrasasse almas preparadas para este
convite: seguir o Senhor Jesus nesta especial seqüela de sofrimentos, carregar
esta especial forma de Cruz. Nós fomos especialmente preparados, para sofrer
intensamente o sofrimento da Igreja sem que o soubéssemos então. Agora, sim,
sabemos e quem no-lo ensinou e quem mostrou-nos uma dimensão inesperada e uma
grandeza da qual não somos dignos da graça magnífica que recebemos, foram os
próprios autores deste flagelo, não nós. Fomos preparados com a grandeza e a
beleza das coisas de Deus para que nos ferisse profundamente, sim, para que se
cravassem doloridamente em nossos corações os espinhos dessa coroa que voltam
a colocar sobre a cabeça do Senhor. Espancam-nos no rosto, os Cardeais e bispos
que se atrevem a dizer o que gritam sobre os telhados. Somos traídos e
abandonados com o que nos vem de Roma.
E
fomos também preparados longamente, com a voz da Mãe e Mestra, com o que nos
prega e dá há mais de 20 séculos para que nessa hora pudéssemos resistir e
procurar socorrer nossos irmãos. Fomos preparados assim para o combate que
Gustavo Corção combateu.
Hoje,
bem o sabemos, bem o sentimos, estamos prontos. Sobretudo sabemos chegou a nossa
hora porque morreu Gustavo Corção deixando-nos na primeira linha de combate
sem suas qualidades e sem os recursos que ele dispunha. Mas sabemos que nossa
hora chegou e que agora devemos pedir o socorro de Deus, a intercessão de Nossa
Senhora, de São Miguel, São José e dos outros nossos santos, as orações de
Gustavo Corção, Alfredo Lage, Fernando Carneiro, Fábio Alves Ribeiro, e de
tantos outros companheiros não mais apenas para que continue a ser bem feita a
formação dos que ficaram mas para que seja bem recebida e fecunda em nós a
obra que a graça de Deus empreende conosco sem o auxílio direto e presente, na
Terra, dos nossos predecessores. Suplicamos, supliquemos que nosso coração não
desfaleça e que a evidente inutilidade dos servidores que sobraram, a inevitável
obscuridade de todo o nosso trabalho, não abata o nosso ânimo e não nos faça
pesado o coração.
*
* *
Não
queria terminar este artigo sem algumas referências pessoais que me parecem
devidas.
Grande
escritor, feroz polemista, ardente pregador Gustavo Corção não deixava, de
notar, como disse no princípio, aspectos de fina sensibilidade no seu
relacionamento com os demais, aspectos que se imaginaria não terem sido
percebidos. Ele podia sentir no obscuro ouvinte de uma aula, dos mais distantes
de sua convivência pessoal, algo que lhe inspirasse uma espécie de inclinação
piedosa. Muitas vezes se dava ao trabalho de telefonar para os amigos, tomar a
iniciativa de manifestar-lhes uma amizade e um interesse de uma forma, com um
calor que surpreendiam. Houve tempo em que, sem recursos, amigos pobres eram
buscados em suas casas e levados por Corção em seu carro para a casa dele onde
o gosto comum pela música proporcionava-lhes freqüentes audições de Bach ou
Mozart em magnífica instalação sonora que o técnico e inventor Gustavo Corção
se esmerara em montar. Numa dessas vezes, vindo buscar-nos, a mim e a minha
mulher, esta lhe disse, já no meio do caminho: “Hoje, Dr. Corção, creio que
vou ouvir uma música diferente na Maternidade”. Fomos diretamente para a Casa
de Saúde São José onde ficamos os dois andando, Dr. Corção e eu, pelos
corredores, noite a dentro, até que soubemos que havia nascido meu filho
Gustavo, seu afilhado, para o qual o padrinho escreveu uma bela carta, “Os
Seis Gustavos”, e a dedicatória [1] que junto a esta publicação.
Este
combatente jamais deixou de surpreender aqueles que só o conheciam de leitura,
quando seu belo sorriso desarmava as apreensões; seu ânimo vivaz surpreendia
pelo vivo interesse por tantas coisas, mesmo no meio de aflições e doenças;
seu valor, reconhecido por amigos e inimigos, poderia tê-lo levado a um fútil
desvanecimento, mas, ao contrário, mostrou-me, a mim, muitas vezes, sua
capacidade de se inclinar para quem não tinha paridade com ele e para quem
estava longe de sua altura. E inclinando-se assim, imitaria talvez a inclinação
chamada Misericórdia cuja definição, segundo os teólogos consiste
precisamente no ato de amor incompreensível pelo qual o Superior se inclina
para o inferior, o Perfeito, para o imperfeito.
Para
quem o acompanhou por tantos anos como discípulo e auxiliar preciso dizer, com
toda a força de minha própria severidade, que nunca o vi desmerecer minha
exigente admiração. Não quero dizer que não tivesse defeitos. Tinha-os,
conheci-os, por experiência própria e por experiência alheia. Mas vi Gustavo
Corção enfrentando situações difíceis, tanto com relação ao risco de vida
que correu mais de uma vez quanto com relação a momentos da vida que um homem
maduro sabe que em geral constrange as pessoas comuns quase inevitavelmente. Por
exemplo, fui testemunha de uma difícil entrevista com o Cardeal D. Jaime em que
este, cercado por todas as manifestações de respeito e submissão que, como
leigos, então prestamos a um verdadeiro Cardeal, dizia ao Prof. Corção, ao
Prof. Gladstone Chaves de Melo e a mim: “Sei que os senhores devem ter motivos
de queixa porque eu não levei adiante o projeto que lhes havia dito ser minha
intenção promover”. Qualquer pessoa na posição de Gustavo Corção, com
seu renome e sua responsabilidade, teria dito uma dessas frases de conveniência
que tais situações sugerem ainda mais naquela época em que, parece, só assim
se falava a Cardeais. Mas o Dr. Corção respondeu: “Senhor Cardeal, não
creio que o Sr. preferisse que nós começássemos esta entrevista mentindo. Por
isso vejo-me forçado a lhe confessar que, efetivamente, o senhor nos deixou
desapontados”. Como poderia eu impedir que crescesse minha admiração?
(Revista Permanência, N° 116 a 119, Ano XI)
Notas:
[1]
[N.
da P.] Eis a tocante dedicatória a que alude Júlio Fleichman:
“Meu
querido afilhado,
Seus
pais escolheram para você um velho padrinho com idade de avô e saúde de bisavô.
Sendo pouco provável que eu possa conversar com você nos dias difíceis das
primeiras crises, quando aos olhos do moço o mundo parece absurdo e mau, ou
quando o sopro das idéias passageiras puser em risco a chama da vela do seu
batismo, aqui fico a esperar por você meu caro Gustavo, neste livrinho, ‘A
Descoberta do Outro’, escrito depois das tempestades que também atravessei. E
o que o livro não puder fazer, praza a Deus que lá no céu o velho padrinho
possa conseguir para você aos pés do trono de Deus três vezes santo.
22/05/1960
Gustavo Corção”.